TEXTO 1
Por Conceição Evaristo
Maria
1 Maria estava parada há mais de meia hora no
ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância
fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se
acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam
aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava
pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na
casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do
pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as
frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava
feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava
comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas
estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham
comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?
2 A palma de umas de suas mãos doía. Tinha
sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil
para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!
3 Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria
abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão
entra as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia
lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a
hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou
em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela
reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades!
Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se
na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se
lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida
dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga
enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que
bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um
homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado
não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa
imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que
não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o
menino? cochichou o homem. Sabe que sinto falta de
vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade!
Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já
teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos
como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas
não tinha ninguém também! Homens também? Eles
haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser
diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...
4 O homem falava, mas continuava estático, preso, fixo no banco. Cochichava com Maria as palavras, sem, entretanto, virar para o lado dela. Ela sabia o que o homem dizia. Ele estava dizendo de dor, de prazer, de alegria, de filho, de vida, de morte, de despedida. Do buraco-saudade no peito dele... Desta vez ele cochichou um pouquinho mais alto. Ela, ainda sem ouvir direito, adivinhou a fala dele: um abraço, um beijo, um carinho no filho. E logo após, levantou rápido sacando a arma. Outro lá atrás gritou que era um assalto. Maria estava com muito medo. Não dos assaltantes. Não da morte. Sim da vida. Tinha três filhos. O mais velho, com onze anos, era filho daquele homem que estava ali na frente com uma arma na mão. O de lá de trás vinha recolhendo tudo. O motorista seguia a viagem. Havia o silêncio de todos no ônibus. Apenas a voz do outro se ouvia pedindo aos passageiros que entregassem tudo rapidamente. O medo da vida em Maria ia aumentando. Meu Deus, como seria a vida dos seus filhos? Era a primeira vez que ela via um assalto no ônibus. Imaginava o terror das pessoas. O comparsa de seu ex-homem passou por ela e não pediu nada. Se fossem outros os assaltantes? Ela teria para dar uma sacola de frutas, um osso de pernil e uma gorjeta de mil cruzeiros. Não tinha relógio algum no braço. Nas mãos nenhum anel ou aliança. Aliás, nas mãos tinha sim! Tinha um profundo corte feito com faca-laser que parecia cortar até a vida.
5 Os assaltantes desceram rápido. Maria olhou saudosa e desesperada para o primeiro. Foi quando uma voz acordou a coragem dos demais. Alguém gritou que aquela puta safada conhecia os assaltantes. Maria assustou-se. Ela não conhecia assaltante algum. Conhecia o pai do seu primeiro filho. Conhecia o homem que tinha sido dela e que ela ainda amava tanto. Ouviu uma voz: Negra safada, vai ver que estava de coleio com os dois. Outra voz ainda lá do fundo do ônibus acrescentou: Calma gente! Se ela estivesse junto com eles, teria descido também. Alguém argumentou que ela não tinha descido só para disfarçar. Estava mesmo com os ladrões. Foi a única a não ser assaltada. Mentira, eu não fui e não sei porquê. Maria olhou na direção de onde vinha a voz e viu um rapazinho negro e magro, com feições de menino e quere lembrava vagamente o seu filho. A primeira voz, a que acordou a coragem de todos, tornou-se um grito: Aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões! O dono da voz levantou e se encaminhou em direção a Maria. A mulher teve medo e raiva. Que merda! Não conhecia assaltante algum. Não devia satisfação a ninguém. Olha só, a negra ainda é atrevida, disse o homem, lascando um tapa no rosto da mulher. Alguém gritou: Lincha! Lincha! Lincha!... Uns passageiros desceram e outros voaram em
direção a Maria. O motorista tinha parado o ônibus para
defender a passageira: Calma, pessoal! Que loucura é esta?
Eu conheço esta mulher de vista. Todos os dias, mais ou
menos neste horário, ela toma o ônibus comigo. Está vindo
do trabalho, da luta para sustentar os filhos... Lincha!
Lincha! Lincha! Maria punha sangue pela boca, pelo nariz e
pelos ouvidos. A sacola havia arrebentado e as frutas
rolavam pelo chão. Será que os meninos gostam de melão?
6 Tudo foi tão rápido, tão breve. Maria tinha
saudades do seu ex-homem. Por que estavam fazendo isto
com ela? O homem havia segredado um abraço, um beijo, um carinho no filho. Ela precisava chegar em casa para
transmitir o recado. Estavam todos armados com facaslaser que cortam até a vida. Quando o ônibus esvaziou, quando chegou a polícia, o corpo da mulher já estava todo
dilacerado, todo pisoteado. Maria queria tanto dizer ao
filho que o pai havia mandado um abraço, um beijo, um
carinho.
(In: Olhos d’água, p. 39-42). Texto adaptado. Observação: os parágrafos estão numerados.