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O Sobrado
Que pessoa estranha, dona Rosalina. Ela o deixava desconcertado não apenas pela ambivalência de sua conduta
mas pelo mistério mesmo do seu ser. Como é que uma pessoa era assim? Ele não entendia, por mais que verrumasse1
a cabeça não conseguia entender. Ela lhe dava a impressão
de duas numa só: quando ele pensava conhecer uma, via que
se enganara, era outra que estava falando. Às vezes mais de
uma, tão imprevista nos modos, nos jeitos de parecer. Um
ajuntamento confuso de Rosalinas numa só Rosalina.
Ele passava horas ouvindo dona Rosalina, vendo-lhe
os mínimos gestos, o mais leve movimento dos lábios e dos
olhos. Via-a de todas as posições, seguia-lhe os passos, e
ela nunca parecia ser uma, a mesma pessoa. E depois, no
quarto, procurava botar em ordem as ideias, compor com os
fiapos que pegava no ar uma só figura de dona Rosalina:
uma dona Rosalina impossível de ser. Na rua não pensava
em dona Rosalina, se esquecia inteiramente dela. Aprendeu
que, por mais que perguntassem, não podia falar nunca naquela mulher tão sozinha. Sua boca devia ser por vontade
calada, como era por desígnio de Deus a boca de Quiquina.
Se às vezes na rua lhe assaltava a lembrança de dona Rosalina, afastava-a ligeiro, porque, distante, a sua figura ganhava
em estranheza e cores sombrias. E ele queria o ar puro da
rua, a claridade do dia, onde as horas passavam, a vida era
o comum da vida da gente, sem nenhum outro mistério e sobressalto senão o mistério mesmo de existir. O sobrado era o
túmulo, as voçorocas2
, as veredas sombrias.
(Autran Dourado. Ópera dos Mortos)
1refletisse
2escavações no solo ou em rocha decomposta causadas por erosão do
lençol de escoamento de águas pluviais
Considere as passagens:
•?Ela o deixava desconcertado não apenas pela ambivalência de sua conduta mas pelo mistério mesmo do seu
ser. (1º parágrafo)
•?Ele não entendia, por mais que verrumasse a cabeça
não conseguia entender. (1º parágrafo)
•? Sua boca devia ser por vontade calada, como era por
desígnio de Deus a boca de Quiquina. (2º parágrafo)
•? ... afastava-a ligeiro, porque, distante, a sua figura ganhava em estranheza e cores sombrias. (2º parágrafo)
As expressões destacadas – “não apenas ... mas”, “por
mais que”, “como” e “porque” – estabelecem entre as orações, correta e respectivamente, relações de sentido de: