Já em sua República, Platão imaginava que a
constituição de seu Estado utópico se fundaria na “nobre
mentira” – uma estória ficcional sobre a origem da ordem
social, que assegura a lealdade dos cidadãos e impede
que questionem a constituição. Devia-se dizer aos
cidadãos, escreveu Platão, que todos eles haviam nascido
da terra, que a terra era a mãe deles e, portanto, deviam
lealdade filial à terra natal. Também se devia dizer aos
cidadãos que, quando foram concebidos, as divindades
misturaram dentro deles vários metais – ouro, prata,
bronze e ferro –, o que justifica uma hierarquia natural
entre dirigentes de ouro e servos de bronze. Embora a
utopia de Platão nunca se tenha concretizado, muitos
Estados ao longo das eras contaram a seus habitantes
variações dessa nobre mentira. (...)
A Constituição dos Estados Unidos começa com
“Nós, o povo”. Ao reconhecer sua origem humana, ela
investe os seres humanos do poder de corrigi-la. Os Dez
Mandamentos abrem com “Sou o Senhor teu Deus”.
Alegando origem divina, o texto impede que os seres
humanos o alterem. Por isso é que o texto bíblico segue
endossando a escravidão até hoje. (...)
Todos os sistemas humanos se baseiam em ficções,
mas alguns o admitem e outros não. Ser veraz sobre as
origens de nossa ordem social facilita efetuar mudanças
nela. Se foram seres humanos como nós que a
inventaram, então podemos corrigi-la. Mas essa
veracidade tem seu preço. Reconhecer as origens
humanas da ordem social tem seu preço. Reconhecer as
origens humanas da ordem social dificulta que haja uma
concordância geral com ela.
Texto extraído do livro Nexus, de Yuval Noah Harari. Companhia das
Letras, 2024. Trad. Berilo Vargas e Denise Bottmann, p. 59-61.