Este pigmento amado por artistas plásticos
era feito com… múmias
Um pigmento amarronzado, translúcido e
com textura única. Ótimo para fazer sombras e
detalhes em pinturas a óleo ou aquarelas. Por
alguns
séculos,
os
pintores
europeus
consideravam que os únicos defeitos do marrom
múmia eram desbotar facilmente e rachar depois
de seco – dando um visual craquelado para as
obras.
Foi só em meados do século 19 que um
detalhezinho começou a prejudicar o pigmento
de tom terroso diante da opinião pública: o nome
não estava no sentido figurado. Sua matéria
prima eram, literalmente, múmias egípcias
moídas.
A história dessa tinta começou na Europa
renascentista, quando múmias trazidas do Egito
eram comercializadas sem nenhum apreço por
seu valor histórico, principalmente para supostos
fins medicinais.
Os europeus acreditavam, erroneamente,
que a substância escura que envolvia os corpos
das múmias era betume, uma mistura mineral
usada na medicina persa tradicional. Quando eles
descobriram tumbas com milhares de cadáveres,
acharam que tinham encontrado uma solução
para a escassez desse material, e passaram a usar
a meleca como remédio para tudo: de dor de
dente a infarto. Turistas, exploradores e a
população pobre local faziam a festa nos
sarcófagos, e os restos mortais eram vendidos por
pechinchas: em 1625, era possível comprar três
cabeças por meio dirrã, a moeda de prata que
circulava no mundo árabe.
Sabendo que os europeus comiam,
bebiam e esfregavam múmias em si mesmos, não
é tão chocante descobrir que eles também
pintavam com elas. O pigmento só parou de
circular de vez no meio do século passado. O
marrom-múmia caiu em desuso por causa de sua
má reputação, da instabilidade na qualidade do
pigmento e, óbvio, da dificuldade em se obter
matéria-prima.
No seu auge, a demanda excedeu a oferta
de múmias egípcias. E, apesar de ser “só”
marrom, não era fácil replicar as propriedades do
betume fake. Alguns fabricantes faziam versões
falsificadas, usando cadáveres recentes de
pessoas escravizadas ou criminosos.
É difícil saber quais quadros levaram o
pigmento, porque o processo de análise é
destrutivo. Mas sabemos que restos mortais de
egípcios estão presentes em várias obras
consagradas, como a famosa pintura iluminista A
liberdade guiando o povo, do francês Eugène
Delacroix.
Você já deve ter visto: a pintura mostra
uma mulher vigorosa, de peito nu, empunhando
a bandeira da França e um rifle em meio à fumaça
de canhões e corpos caídos no chão. Um clássico
iluminista europeu, um símbolo da luta pela
liberdade, igualdade e fraternidade. Colorido
pelos corpos traficados de egípcios de 5 mil anos.
LOBATO, B. Este pigmento amado por artistas plásticos
era feito com… múmias. Revista Superinteressante.
(Adaptado).
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