Amnésia digital: entenda como a tecnologia
pode afetar a memória
O vendedor Enéas Cardoso costumava
lembrar bem dos endereços de Belo Horizonte
quando trabalhava como taxista há 20 anos. Na
época, ele fazia apenas consultas simples em mapas
quando ia para uma região desconhecida, mas, com
o surgimento do GPS, a memória foi ficando
preguiçosa. “Eu andava no táxi só com a lista
telefônica e quase não olhava no mapa. Hoje em dia
é GPS pra tudo, não tem como você sair de casa e ir
a algum lugar sem colocar GPS. Coisa que na época
que você rodava sem o GPS você conseguia ir
tranquilo, de boa, mas hoje em dia não tem como”,
relata.
Essa situação vivida pelo Enéas tem nome:
amnésia digital. A situação ocorre por causa do uso
excessivo de tecnologias para guardar informações
que facilmente podem ser acessadas com poucos
cliques.
Essa praticidade fez o corretor de seguros
Luís Eduardo dependente. Ele tem dois aparelhos,
um corporativo e outro pessoal, e os dois estão
repletos de anotações. Para tomar remédio ou
mesmo ligar para alguém, ele precisa do lembrete do
celular. “Eu tenho um grupo, gosto de guardar
arquivos, mensagens e tem o despertador. Eu
confesso que o despertador eu uso muito. Às vezes,
por exemplo, para tomar um remédio, eu sei que não
vou lembrar, então coloco no despertador, que aí no
horário do remédio eu tomo”.
“Se eu te perguntar agora o contato de algum
parente seu, você consegue se lembrar?” “Isso não,
esquece. Contato era só da minha mãe, mas nem sei
mais. Meu irmão, por exemplo, já trocou de telefone
umas três vezes, aí eu já esqueci. Contato eu já parei
de gravar, não tem como não”, admite.
Essa amnésia digital tem provocado falta de
estímulo do cérebro. O membro da Associação
Mineira de Psiquiatria, Dr. Rodrigo Huguet cita
também o exemplo de contas básicas que são feitas
só na calculadora do celular. "Realmente como as
pessoas vão anotando tudo nele, consultando o
celular pra tudo e fazendo as contas no aparelho, elas
deixam de exercitar o cérebro, deixam de usá-lo para
gravar as coisas e fazer contas. A pessoa não
consegue calcular porque ela é dependente da
máquina para fazer todas as contas pra ela. Então
realmente é preciso ter cuidado porque as máquinas,
os computadores estão aí pra ajudar a gente, mas
deixamos de usar essa máquina importante que é o
nosso cérebro e deixamos de exercitá-lo", explica.
A analista Cintia Silva diz que depende do
celular até para lembrar de senhas para acessos a
sites e serviços dentro do próprio aparelho. Com o
passar do tempo, ela percebeu uma piora para
recordar. “Tudo que eu vou fazer hoje eu tenho que
colocar no celular, como senha de rede social, de email, então a gente não vive hoje sem telefone. Eu
tenho um grupo meu que eu mando tudo para
lembrar, principalmente comprovante de pagamento.
Antes disso tudo, do celular, minha memória era
muito melhor. Agora a gente tem tudo no telefone”,
comenta.
Deixar de ter tudo no celular pode ser uma
saída. Para forçar o exercício da mente, o psiquiatra
Rodrigo Huguet sugere uma relação menos
dependente com as tecnologias. “A gente tem que
estar atento com o que a gente está usando. Inclusive
escolher quando usá-las. É interessante de vez em
quando a pessoa decidir deixar o celular de lado pra
poder focar em alguma coisa, alguma atividade,
alguma pessoa. E se você notar que está muito
disperso, que não está conseguindo concentrar, pode
ser o caso de ficar atento a isso”, recomenda.
Antes de terminar esse texto, me responde
uma coisa, mas pense rápido: Você se lembra do
contato de pelo menos duas pessoas? Se não, pode
ser o momento de começar a exercitar mais a sua
mente.
VELOSO, Victor. Disponível em:
https://cbn.globo.com/saude/noticia/2024/10/12/amnesia-digital-entenda-como-a-tecnologia-pode-afetar-amemoria.ghtml (Adaptado)