Texto I
Sobre coisas que acontecem
(Martha Medeiros)
Quando abri os olhos pela manhã, não podia
imaginar que seria o dia que mudaria a minha vida.
Que seria o dia que conheceria o homem que
me fez cometer um crime. O dia que eu me
enxergaria no espelho pela última vez. O dia que
descobriria que estava grávida. O dia que
encontraria um envelope lacrado, com uma carta
remetida a mim 20 anos antes.
(Que dia foi esse? Quem está falando?)
É apenas um exercício de criação. Iniciei a
crônica com uma frase fictícia e demonstrei os
desdobramentos que ela poderia ter. Uma vez
escolhido o caminho a seguir, uma história
começa a ser contada, que pode ser longa ou
curta, verdadeira ou fantasiosa. Bem-vindo ao
mundo encantado da escrita.
Convém que a primeira frase seja cintilante.
A partir dela, o leitor será fisgado ou não. Exemplo
clássico: “Todas as famílias felizes se parecem;
cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, início
do romance Anna Karenina, de Tolstói.
Arrebatador. Uma vez aberta a janela do
pensamento, a mágica acontece: o leitor é puxado
para um local em que nunca esteve, é deslocado
para um universo que poderá até ser hostil, mas
certamente fascinante, pois novo. Talvez não se
identifique com nada, mas será desafiado a
enfrentar sua repulsa ou entusiasmo. Não estará
mais em estado neutro. A neutralidade é um
desperdício de vida, uma sonolência contínua.
A crônica tem o mesmo dever: o de jogar
uma isca para o leitor e atraí-lo para o texto.
Gênero híbrido (literário/jornalístico), encontrou no
Brasil a sua pátria. Somos a terra de Rubem Braga
e Antônio Maria, para citar apenas dois gênios
entre tantos que fizeram da leitura de jornal um
hábito não só informativo, mas prazeroso e
provocador. Se eu fosse citar todos os colegas
que admiro, teria que me estender por meia dúzia
de páginas, mas só tenho essa.
A crônica é um gênero livre por excelência.
Pode ser nostálgica, confessional, lunática,
poética. Pode dar dicas, polemizar, elogiar,
criticar. Pode ser partidária ou sentimental,
divertida ou perturbadora, à toa ou filosofal – é
caleidoscópica, tal qual nosso cotidiano. Ao
abrirmos os olhos pela manhã, nem imaginamos
que uma miudeza qualquer poderá nos salvar da
mesmice, nos oferecer um outro olhar, mas assim
é. Todos nós vivemos, por escrito ou não, uma
crônica diária. Hoje, antes de adormecer, você já
estará um pouco transformado.
(Revista ELA, O Globo, 24/07/2022)