O texto a seguir é
referência para a questão.
O nome
Krenak é constituído por dois termos: um é a primeira partícula, kre, que
significa cabeça, a outra, nak, significa terra. Krenak é a herança que
recebemos dos nossos antepassados, das nossas memórias de origem, que nos
identifica como “cabeça da terra”, como uma humanidade que não consegue
se conceber sem essa conexão, sem essa profunda comunhão com a terra. Não a
terra como um sítio, mas como esse lugar que todos compartilhamos, e do qual
nós, os Krenak, nos sentimos cada vez mais desraigados – desse lugar que
para nós sempre foi sagrado, mas que percebemos que nossos vizinhos têm quase
vergonha de admitir que pode ser visto assim. Quando nós falamos que o nosso
rio é sagrado, as pessoas dizem: “Isso é algum folclore deles”; quando dizemos
que a montanha está mostrando que vai chover e que esse dia vai ser um dia
próspero, um dia bom, eles dizem: “Não, uma montanha não fala nada”. Quando
despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos,
considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses
lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do
nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta
que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são
chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos.
(KRENAK, Ailton. Ideias para adiar
o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 24.)