Leia o texto e responda o que se pede no comando da questão:
E a vida continua
Chegou a hora de enfrentar os preconceitos com a
velhice.
Tive bons anos, produtivos e confortáveis. Até pouco
tempo, eu acreditava quando diziam que não parecia ter mais de
50. Embora minha vaidade estranhasse não me acharem com
40. Fui tomando consciência e não foi uma coisa rápida. Eu
achava ótimo ter direito a filas prioritárias. Vaga garantida em
shopping. E mais uma série de vantagens que chegam com a
idade. Tudo isso eu achava legal, porque também não acreditava
ter a aparência dos prioritários. Até que um dia vi a fila do avião. E
lá estavam os idosos. Iguais a mim. Descobri para o mundo, eu
tinha me transformado em um senhor de idade. Os mais velhos
são discriminados, e a gente nem percebe imediatamente o
tamanho do preconceito. Mas quando se fala que alguém é
"velho", é como pertencesse a uma categoria menor na
sociedade. E a dimensão da velhice muda com a idade de quem
olha. Lembro-me de que, aos 20 anos, uma amiga namorava um
homem de 40. Diziam que era "velho". Eu hoje tenho saudade
dos meus 40 anos. Amar alguém de mais idade pode ser
inconcebível para quem tem o corpo em cima e a beleza da
juventude. Empregos privilegiam os mais novos. Juventude é
associada com dinamismo, energia. Há empresas que
aposentam obrigatoriamente quem tem 60 ou pouco mais.
Quanto mais envelhece, mais a pessoa fica descartável, embora
talvez seja seu momento mais pleno de experiência levo em
consideração e criatividade. Agora, na pandemia da Covid-19,
houve quem perguntasse se valia a pena manter nos aparelhos
os mais velhos. O preconceito da idade já recebeu até nomes:
ageísmo e etarismo entre outros.
Nem levo em consideração piadas com minha idade. A
gente não envelhece. Mas se recria.
A rotina da vida se transforma. Outro dia li na internet
que depois dos 30 ressaca parece uma dengue. E 30 é tão
pouquinho. De repente, quando viajo, há tanto remédio pra levar.
Não estou falando de nada grave. Mas de "por via das dúvidas".
Vai que eu tenha um não sei quê... Tudo começou com um
necessaire, mas agora é uma malinha inteira, tentando abarcar
todas as situações de emergência. Mas claro, se tenho alguma
coisa... Precisa-se justamente do remédio em que ninguém
pensou. Tenho minhas obrigações: 3 litros de água por dia, no
mínimo; caminhadas... Dizem que para manter o cérebro ativo é
bom aprender línguas. Outro dia estava procurando aulas de
aramaico!
A paisagem em torno da gente vai sumindo. Perdem-se
pessoas, de algumas não se ouve mais falar e um dia vem a
notícia: "Você soube do fulano?". O preconceito não é só dos
mais jovens. Os próprios idosos se discriminam. Difícil ver o
dono de uma empresa contratar alguém de sua própria idade.
Muitos se atiram em procedimentos estéticos como se
envelhecer não fosse parte de um processo da vida. Eu, você,
todos nós estamos envelhecendo neste momento.
As pessoas continuam lá com sua genialidade. Seu
fascínio. Portanto, se me insinuam "você não tem mais idade
para isso", só sorrio. Nem levo em consideração piadas com
minha idade. Não vou enfrentar essa discriminação. A gente não
envelhece. Mas se recria. A vida é linda, e continua.
(Walcyr Carrasco. Revista VEJA. 26 de janeiro, 2022. ed. 2773)
Identifique a alternativa em que o termo destacado é um
predicativo do objeto.