SMART SPEAKERS: VALE A PENA TER?
“VOCÊ ESTÁ SENDO HACKEADA.” Foi o que a americana Danielle ouviu ao atender o telefone. Ela não reconheceu a voz do outro lado, que disse algo ainda mais
perturbador: “Desligue imediatamente todos os seus
dispositivos Alexa”. Danielle e o marido tinham instalado “smart speakers” (caixas de som inteligentes) da
Amazon em vários cômodos e usavam sua assistente
virtual, a Alexa, para tocar música e controlar a temperatura, as luzes e até as portas da casa. Danielle
achou que fosse trote, e só acreditou quando a outra
pessoa começou a tocar gravações de conversas dela
com o marido, em casa. O casal havia sido grampeado pela Alexa, que enviou o áudio para uma terceira
pessoa – por sorte, um colega do marido de Danielle.
A Amazon atribuiu o caso a um bug raro: Danielle
ou o marido podem ter dito alguma palavra similar a
“Alexa”, ativando a assistente, que então se confundiu
com outras coisas que eles disseram – e entendeu que
devia gravar tudo e encaminhar por e-mail para um
contato. A família nunca mais teve coragem de ligar
as caixinhas. “Eu me senti invadida”, declarou Danielle.
Agora, as caixinhas finalmente estão à venda no Brasil: o Google lançou a sua, que se chama Nest Mini.
Quando você dá uma ordem qualquer para a Nest
Mini, isso ativa cinco sistemas de processamento de
dados: reconhecimento de fala, decomposição semântica, compreensão de intenção, geração de resposta e sintetização de voz, numa sequência de ações
coreografada para levar 0,47 segundo – o tempo máximo entre a sua ordem e a resposta da Nest Mini.
Com as gigantes da internet coletando cada vez mais
informações sobre todo mundo, quem teria coragem
de dar o próximo passo – e colocar, na própria casa,
uma inteligência artificial que fica com o microfone
ligado 24 horas por dia? Resposta: muita gente.
O fato é que você já leva consigo, o tempo inteiro, um
gadget que também tem microfone e pode gravar o
que você diz, bem como vigiar a sua vida de várias
outras maneiras, e nem por isso você o dispensaria:
o seu smartphone.
Super Interessante, edição 411, jan. 2020. p. 42-49. Adaptado