Leia o texto, para responder à questão.
O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam
nos bancos: cinco horas de suplício, uma crucificação. Não
há prisão pior que uma escola primária do interior. A imobilidade e a insensibilidade me aterraram. Abandonei os cadernos, não deixei que as moscas me comessem.
Assim, aos nove anos, ainda não sabia ler.
Ora, uma noite, depois do café, meu pai me mandou buscar um livro que deixara na cabeceira da cama. Novidade:
meu velho nunca se dirigia a mim. E eu, engolido o café,
beijava-lhe a mão, porque isso era praxe, mergulhava na
rede e adormecia. Então, espantado, entrei no quarto, peguei
com repugnância o antipático objeto e voltei à sala. Aí recebi
ordem para me sentar e abrir o volume.
Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma
cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas,
alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. No meio do capítulo meu pai pôs-se a conversar comigo, perguntou-me se eu
estava compreendendo o que lia. Explicou-me que se tratava de uma história, exigiu atenção e resumiu a parte já lida.
Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expressões
literárias. Alinhei o resto do capítulo, diligenciando penetrar o
sentido da prosa confusa. E uma luzinha quase imperceptível
surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do
meu espírito.
Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos, o lenhador
e outros personagens da história agitaram-me o sono. Dormi
com eles, acordei com eles. À noite meu pai pediu novamente
o volume, e a cena da véspera se reproduziu: leitura emperrada, mal-entendidos, explicações. Na terceira noite fui buscar
o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso. E, no dia seguinte, quando me preparei para moer a
narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo.
Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se
tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a
maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos,
depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a
minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de
que as horas de encanto eram boas demais para mim e não
podiam durar.
(Graciliano Ramos. Infância. 5. ed. São Paulo:
Livraria Martins Editora, 1961. Excerto adaptado)
O emprego das vírgulas na frase “… uma noite, depois do
café, meu pai me mandou buscar um livro que deixara na
cabeceira da cama.” atende à mesma regra de pontuação da norma-padrão da língua que se verifica em: