Chão da infância. Algumas lembranças me
parecem fixadas nesse chão movediço, as minhas
pajens. Minha mãe fazendo seus cálculos na ponta do
lápis ou mexendo o tacho da goiabeira ou ao piano,
tocando suas valsas. E Tia Laura, a viúva eterna que
foi morar na nossa casa e que repetia que meu pai era
um homem instável. Eu não sabia o que queria dizer
instável mas sabia que ele gostava de fumar charutos
e gostava de jogar. A tia um dia explicou, esse tipo de
homem não consegue parar muito tempo no mesmo
lugar e por isso estava sempre sendo removido de uma
cidade para a outra como promotor. Ou delegado.
Então minha mãe fazia os tais cálculos de futuro, dava
aquele suspiro e ia tocar piano. E depois arrumar as
malas.
- Escutei que a gente vai se mudar outra vez,
vai mesmo? Perguntou minha pajem Maricota.
Estávamos no quintal chupando os gomos de cana que
ela ia descascando. Não respondi e ela fez outra
pergunta: Sua tia vive falando que agora é tarde porque
Inês é morta, quem é essa tal de Inês?
Sacudi a cabeça, não sabia. Você é burra,
Maricota resmungou cuspindo o bagaço. Fiquei
olhando meu pé amarrado com uma tira de pano, tinha
sempre um pé machucado (corte, espinho) onde ela
pingava tintura de iodo (ai, ai!) e depois amarrava
aquele pano. No outro pé, a sandália pesada de lama.
[...]
(TELLES, Lygia Fagundes. Invenção e Memória.
Rio de Janeiro. Rocco, 2000, p.9)