Querido Diário,
No tempo do Coelho Neto, não tinha churrascaria, tinha?
Claro que não.
Não tinha nem churrascaria nem dia das mães e, portanto,
ele não entendia nada de padecer no paraíso, nessa época era
moleza. E este ano, para variar, está prometendo, vai ser mais
um dia das mães inesquecível. Não quanto ao local das
homenagens, que é churrascaria de novo. Como sempre,
houve debates acalorados sobre isto. Todo ano alguém diz que
é preciso variar e desta vez não vai ser churrascaria, mas
sempre acaba sendo, eu nem presto atenção mais na
discussão. Minha última intervenção foi há vários anos, em
legítima defesa, para deixar claro que considero insultuoso me
levarem para comer peixe cru com arroz papa sem sal e que,
nesse caso, prefiro a sopa dos pobres do padre Celso. Não me
levando para comer peixe cru, tudo bem. Eu como qualquer
coisa, pizza, pastel, hambúrguer, rabada, mocotó e aquelas
comidas baianas molengas e amarelosas, mas peixe cru não,
tudo tem seu limite, tem que haver respeito.
Mas, como eu já te contei, haverá uma grande novidade,
que é a presença de Vó Eulália, que chegou de Alagoas na
quarta. Mandaram buscá-la porque ela está fazendo noventa
anos, embora pareça muito menos. Eu tenho um medozinho,
mas gosto dela. O mesmo, com certeza, não pode ser dito de
todo o resto da família. No aeroporto mesmo, aquele lourinho,
filho do outro casamento da Selminha, um chatinho catarrento
e esganiçado, cujo nome eu sempre esqueço, só acho que é
Fred, mas sei que não é, esse, vamos dizer, Fred, começou a
encher o saco e Vó Eulália deu-lhe um puxão de orelha
caprichado, que ele chegou a ficar roxo. “Se é para chorar, pelo
menos chore com razão”, disse ela, com aquele sorrisinho de
cangaceira. A Selminha não gostou, mas eu, claro, adorei e Vó
Eulália não quer nem saber se alguém não gostou. E o Fred
merece. Meu Deus, o nome dele não é Fred. Ted? Eu só
lembro que tem um E. Ernesto?
Aliás, grande bênção, o celular, pelo menos na churrascaria
do dia das mães, porque agora a juventude fica em silêncio,
enquanto manda mensagens para lá e para cá, ou seja, o
tempo todo. Desconfio que alguns deles ainda não aprenderam
a falar direito e o único órgão deles capaz de comunicação
verbal é o polegar, ali teclando kd vc rsrsrs bjs e outras
informações cruciais, que eles ficam mostrando uns aos outros,
em vez de conversar. Me lembra cachorros cheirando uns aos
outros, não sei por quê. O Marcelo, o gordinho de cabelo
cacheado, também filho da Selminha, só que com o Haroldo,
com certeza não sabe conversar, porque o universo dele são
os joguinhos dos computadores e, quando alguém fala com
ele, ele responde bzzz-strrp-vjjj-tueen, com os olhos
esgazeados. E tem as fotos também, para as quais eles só
olham uma vez e nunca mais, antes de distribuí-las às redes
sociais do mundo todo, a gente com cara de besta e deficiente
mental em todas elas.
De resto, não há razão para imaginar grandes surpresas. O
meu novo genro por parte da Bia – que já não é mais tão novo
assim, já vai fazer cinco anos que estão juntos, embora até
hoje eu não saiba por que e o que foi que eles viram um no
outro -, o Gilberto, o nosso Betão, vai encher a cara de chope,
vai ficar com os olhos marejados e vai fazer um discursinho em
que vai me chamar de bimãe outra vez. Bi, como em
bicampeonato. Bimãe porque eu sou avó, mãe duas vezes,
sacou? Ele é um gênio. Espero que não fique muito
entusiasmado e não chame Vó Eulália de trimãe, porque não
vai resultar bem, até porque ninguém sabe tantos palavrões e
tem tanta disposição para mostrar isso do que Vó Eulália.
Mas, querido, eu fico falando assim e parece que não gosto
da família, que sou uma desnaturada insensível, que não dou valor às coisas mais importantes desta vida. Mas nada pode
estar mais longe da verdade. Eu adoro a família, adoro ser mãe
e avó, sério mesmo. Esses senões acontecem a todos, de uma
forma ou de outra e devemos pôr as mãos para o céu, porque
não temos nenhum problema grave, como tantos outros. É só
que de vez em quando dá vontade de ter uma folguinha de
tanto padecimento paradisíaco. E, sim, bimãe não sou eu.
Betão e Vó Eulália sabem quem é.
João Ubaldo Ribeiro