Texto 2A1-I
Tinha de deixar aquela casa. Não sentia saudades. Era
uma casa escura, com um cheiro doce e enjoado que nunca
passou. Não tinha vista a não ser a da janela que dava para o
edifício ao lado. E só via as cozinhas. Quando anoitecia, toda
aquela vizinhança começava, ao mesmo tempo, a fazer bife, e o
ar ficava cheirando a cebola e alho. Ia-se embora, com alegria
até, porque o outro apartamento tinha uma janela de onde era
possível ver o mar, não todo, mas um pedacinho que, lá um dia,
talvez lhe mostrasse um navio passando. Claro, arejado.
Mas era preciso levar suas poucas coisas. Uma calça, duas
camisas, um rádio de cabeceira, talcos, dentifrícios, uma lavanda,
quatro ou cinco toalhas. Cabia tudo em uma mala só. Mas tinha a
gaveta. Tinha de desocupar aquela gaveta. Cinco ou seis cartas
guardadas ali.
Resolveu ler, a começar pela primeira, pondo-as em
ordem pelas datas. Ela dizia tanto “te amo, te amo”... e contava
que andara chorando na rua, que o fora esperar na estação, que a
parenta já andava desconfiada de sua tristeza. No fundo de um
envelope, o raminho de cabelo. Havia escurecido com o tempo,
mas era um pedacinho de sua beleza e, de qualquer forma, um
pouco de presença a querer bem.
Antônio Maria. Com vocês, Antônio Maria. Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1994, p. 83-84 (com adaptações).