O que os outros vão pensar?
Quando eu era pequena, não tinha medo nenhum
de bicho-papão, mula sem cabeça, bruxa malvada ou o
diabo a quatro. Quem me aterrorizava era outro tipo de
monstro. Eles atacavam em bando. Chamavam-se “os
outros”.
Nada podia ser mais danoso do que os outros. As
crianças acordavam de manhã já pensando neles. Quer
dizer, as crianças não: as mamães. Era com os outros que
elas nos ameaçavam caso não nos comportássemos
direito. Se não estudássemos, os outros nos chamariam
de burros. Se não fôssemos amigos de toda a classe, os
outros nos apelidariam de bicho do mato. E o pior é que
as mães não mantinham a lógica do seu pensamento.
“Mas mãe, todo mundo dorme na casa dos amigos.” “Eu
lá quero saber dos outros? Só me interessa você!” Era de
pirar a cabeça de qualquer um. Não víamos a hora de
crescer para nos ver livres daquela perseguição.
Veio a adolescência, e que desespero: descobrimos
que os outros estavam mais fortes que nunca, ávidos por
liquidar com nossa reputação.
Não tinha escapatória: aos poucos fomos descobrindo
que os outros habitavam o planeta inteiro, estavam de
olho em todas as nossas ações, prontos para criticar nossas
atitudes e ferrar com nossa felicidade.
Hoje eles já não nos assustam tanto. Passamos por
poucas e boas e, no final das contas, a opinião deles não
mudou o rumo de nossa história. Mas ninguém em sã
consciência pode se considerar totalmente indiferente a
eles. Os outros ainda dizem horrores de nós. Ainda têm o
poder de nos etiquetar, de nos estigmatizar. A gente bem
que tenta não dar bola, mas sempre que dá vontade de
entregar os pontos ou de chorar no meio de uma
discussão, pensamos: “Não vou dar esse gostinho para os
outros”.
Está para existir monstro mais funesto do que aquele
que poda nossa liberdade.
(Carta Maior. Por Martha Medeiros. Agosto de 2003. Com
adaptações.)