Leia o texto abaixo e responda a questão.
O não desaparecimento de Maria Sombrinha
[...]
Deu-se o caso numa família pobre, tão pobre que nem
tinha doenças. Dessas em que se morre mesmo
saudável. Não sendo, pois espantável que esta
narração acabe em luto. Em todo o mundo, os pobres
têm essa estranha mania de morrerem muito. Um dos
mistérios dos lares famintos é falecerem tantos
parentes e a família aumentar cada vez mais. Adiante,
diria o camaleonino réptil.
A família de Maria Sombrinha vivia em tais misérias,
que nem queria saber de dinheiro. A moeda é o grão
de areia esfluindo entre os dedos? Pois, ali nem
dedos. Tudo começou com o pai de Sombrinha. Ele se
sentou, uma noite, à cabeceira da mesa. Fez as rezas e
olhou o tampo vazio.
[...]
Por fim, sua visão minguante aconteceu com
Sombrinha. Ele via o tamanho dela se acanhar, mais e
mais pequenita. E se queixava, pressentimental:
- “Esta menina está-se a enxugar no poente...”
[...]
Valia a pena sombrear a miúda, minhocar-lhe o juízo?
Mas Sombrinha não deixou de rimar com a alegria.
Afinal, era ainda menos que adolescente, dada
somente a brincriações. Sendo ainda tão menina,
contudo, um certo dia ela se barrigou, carregada de
outrem. Noutros termos: ela se apresentou grávida.
Nove meses depois se estreava a mãe. Sem ter idade
para ser filha como podia desempenhar
maternidades?
A criancinha nasceu, de simples escorregão, tão
minusculinha que era. A menina pesava tão nada que
a mãe se esquecia dela em todo o lado. Ficava em
qualquer canto sem queixa nem choro.
[...]
Deram o nome à menininha: Maria Brisa. Que ela nem
vento lembrava, simples aragem. Dona mãe ralhava,
mas sem nunca fechar riso, tudo em disposições. Até
que certa vez repararam em Maria Brisa. Porque a
barriguinha dela crescia, parecia uma lua em estação
cheia. Sombrinha ainda devaneou. Deveria ser um
vazio mal digerido. Gases crescentes, arrotos tontos.
Mas depois, os seios lhe incharam. E concluíram, em
tremente arrepiação: a recém-nascida estava grávida!
E, de facto, nem tardaram os nove meses. Maria Brisa
dava à luz e Maria Sombrinha ascendia a mãe e avó
quase em mesma ocasião. Sombrinha passou a tratar
de igual seus rebentinhos - a filha e a filha da filha.
Uma pendendo em cada pequenino seio.
A família deu conta, então, do que o pai antes
anunciara: Sombrinha, afinal das contas, sempre se
confirmava regredindo. De dia para dia ela ia ficando
sempre menorzita. Não havia que iludir - as roupas
iam sobrando, o leito ia crescendo. Até que ficou do
mesmo tamanho da filha. Mas não se quedou por ali.
Continuou definhando a pontos de competir com a
neta.
Os parentes acreditaram que ela já chegara ao
mínimo, mas, afinal, ainda continuava a reduzir-se. Até
que ficou do tamanho de uma unha negra. A mãe, as
primas, as tias a procuravam, agulha em capinzal.
Encontravam-na em meio de um anónimo buraco e lhe
deixavam cair uma gotícula de leite.[...]
Até que, um dia, a menina se extingiu, em idimensão.
Sombrinha era incontemplável a vistas nuas.
Choraram os familiares, sem conformidade. Como
iriam ficar as duas orfãzinhas, ainda na gengivação de
leite? A mãe ordenou que se fosse ao quintal e se
trouxesse o esquecido pai. O velho entrou sem
entender o motivo do chamamento. Mas, assim que
passou a porta, ele olhou o nada e chamou, em
encantado riso:
- “Sombrinha, que faz você nessa poeirinha?”
E depois pegou numa imperceptível luzinha e
suspendeu-a no vazio dos braços. “Venha que eu vou
cuidar de si”, murmurou enquanto regressava para o
quintal da casa, nas traseiras da vida.
Mia Couto, Contos do nascer da Terra
Os vocábulos: mistérios, grávida e avó são
acentuados pelas seguintes regras: