Aumento da exposição às telas, ampliado pela
pandemia, pode prejudicar a visão.
A pandemia de Covid-19 provocou um
aumento da utilização de dispositivos como
celulares, tablets e computadores. Com o
distanciamento social, os recursos passaram a
integrar de forma mais frequente a rotina de
trabalho e o contexto escolar, além de já fazer
parte das atividades de lazer, segundo
especialistas consultados pela CNN.
No Dia Mundial da Saúde Ocular, 10 de
julho, especialistas reforçam que a exposição
constante à iluminação artificial dos eletrônicos
pode ser nociva e causar danos irreversíveis para
a visão. O uso em excesso de equipamentos
como celular, tablets e computadores pode
provocar danos que vão da saúde ocular ao
desenvolvimento cognitivo das crianças. De
acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria
(SBP), o tempo de uso diário recomendado varia
de acordo com a idade, sendo restrita a utilização
por crianças menores de dois anos.
Segundo o médico Sérgio Fernandes,
membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia,
a exposição intensa aos eletrônicos pode levar ao
desenvolvimento e agravamento de casos de
miopia nas crianças, que podem ser irreversíveis.
A miopia é um distúrbio da visão definido
principalmente pela dificuldade de enxergar a
distância devido a alterações provocadas no
globo ocular. “A visão aproximada de telas, como
computadores e celulares, a uma distância de
cerca de 40 centímetros e por tempo prolongado
tem levado a um aumento da miopia. Isso é
preocupante, é um fenômeno mundial”, afirma.
Segundo o especialista, o uso deve ser
reduzido e intercalado com outras atividades.
“Elas devem ter atividades ao ar livre diante da
luz do sol, uma das coisas que inibem o aumento
da miopia”, explicou. Um estudo publicado na
revista Nature revelou que o ensino em casa
durante a pandemia aumentou a taxa de
progressão da miopia em crianças, em
comparação com os anos anteriores. A pesquisa
avaliou 115 crianças e adolescentes de 8 a 17
anos. O aumento está relacionado principalmente
à redução do tempo dedicado às atividades ao ar
livre. Segundo o artigo, passar 2 horas por dia em
uma atividade ao ar livre diminui a progressão da
miopia.
Já uma pesquisa publicada no periódico
científico Lancet mostrou que, entre 2019 e 2020,
a progressão da miopia cresceu 40% entre os
jovens de 5 a 18 anos, principalmente devido às
restrições de circulação impostas pela pandemia.
A pesquisa contou com a colaboração de
oftalmologistas de países de todas as regiões da
América do Sul. A professora da Escola de
Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Delma Simão, alerta que o maior
tempo de exposição a telas também pode
ocasionar prejuízos ao desenvolvimento
cognitivo das crianças. “Uma criança que tem
exposição precoce e exagerada às telas, em
geral, pode ter atrasos no desenvolvimento de
fala, de interação social e coordenação motora”,
explica.
Segundo a especialista, a substituição de
atividades de interação familiar e social pelo
recurso tecnológico pode comprometer
o aprendizado. “Esse tempo de tela exagerado
acaba por limitar o desenvolvimento
neuropsicomotor como um todo”, acrescentou. A
exposição precoce às telas também traz impactos
negativos para o desenvolvimento visual e das
primeiras estratégias de comunicação das
crianças. De acordo com a professora da UFMG,
as crianças aprendem a imitar os movimentos
faciais dos adultos, incluindo as mais diferentes
expressões, como medo, alegria e raiva. O
contato com as imagens reproduzidas nas telas,
no entanto, pode levar à uma espécie de
desorganização do aprendizado dessas
expressões. “Brincar de careta, por exemplo, é
algo que pedimos para que os pais façam com as
crianças exatamente pelo aprendizado. É uma
forma de desenvolvimento da comunicação não
verbal, que faz com que elas aprendam a emitir
melhor as suas emoções”, explica Delma. “A
exposição prolongada à tela acaba por
desorganizar o processo de comunicação e pode
gerar um comportamento inapropriado
socialmente, como as birras”, complementa.
Os especialistas ressaltam que a
exposição das crianças às telas é um problema
anterior à pandemia e que a mobilização voltada
para a realização de atividades alternativas deve
ser constante. Segundo o professor da Faculdade
de Educação da UFMG, Rogério Correia, um dos
passos para reduzir o uso de computadores e
celulares pelas crianças é a criação de rotinas
funcionais, como horários regulares para dormir e
realizar as atividades ao longo do dia. O
especialista recomenda que os pais estimulem o
envolvimento dos filhos com as atividades da
casa. “É importante para a criança participar das
atividades diárias, como cuidar do quarto,
organizar os brinquedos, ajudar a arrumar a casa
ou a preparar os alimentos, fazer as refeições
juntos. Além do tempo para as brincadeiras e
para realizar as atividades da escola”, diz.
Segundo Correia, até mesmo o tempo diante das
telas pode ser utilizado de maneira mais
produtiva. “Não dá para afirmar que o tempo de
assistir a um desenho animado ou programa
televisivo tenha o mesmo valor de uma chamada
com parentes que estão confinados em outros
espaços, por exemplo. Vale a pena saber
escolher aquilo que seja mais interessante”,
afirma.
Fonte:https://www.cnnbrasil.com.br/saude/aumento-da-exposicao-as-telasdurante-a-pandemia-pode-prejudicar-a-visao/