Me chamem de velha
Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma
vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice
também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se
isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice
virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”.
Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na
linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma
palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra
que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição
efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas
“ido”, aquele que já foi. Velho é – e está.
Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um
livro chamado “O idoso e o mar”? Não. Como idoso o pescador não
lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães
Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”:
“Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos
e velhas que velhavam…”.
Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.
BRUM, Eliane. Disponível em: https://geledes.org.br. Acesso em: 02 mar. 2022.
No terceiro parágrafo, a citação de um trecho do conto de Guimarães
Rosa é um recurso argumentativo utilizado para demonstrar