Como o empreendedorismo surge nesse contexto de novas formas
de trabalho e sua reorganização na atualidade, com o surgimento
de novas tecnologias e por que o chama de "mito"?
Essa proposta, digamos, de "empresariamento" da nossa vida, só existe
por uma conjugação de fatores.
Primeiro: há um desemprego estrutural de grande proporção em escala
global, ainda que ele seja diferenciado entre os países. No Brasil, se
formos contabilizar o desemprego, mais desalento, mais subutilização,
nós chegamos a 28 milhões de trabalhadores. Se acrescentarmos a
informalidade, esses dados explodem.
Em uma sociedade na qual o desemprego, o subemprego e a
precarização são imensos, há um chão social que permite que o
empreendedorismo ganhe força.
Segundo: isso ocorre em um ideário neoliberal. Um mundo onde a
desregulamentação do trabalho, a perda de direitos sociais, é um
“modus operandi” das corporações. É preciso desregulamentar o
trabalho e reduzir os custos.
E isso se dá em um momento em que o mundo tecnológico vive uma
impulsão profunda. A cada momento, a cada dia, a cada segundo,
um novo invento. Não importando se esse invento tem um sentido
humano social ou não. O que importa é que ele seja uma vantagem de
um grupo de corporações em relação à outra.
E o terceiro elemento: o Estado vem cada vez mais se desobrigando
de qualquer tipo de seguridade social, desde o fracasso do Estado de
bem-estar social na Europa e dos Estados do tipo keynesiano em várias
partes do mundo.
Nesse momento é que ganha corpo a ideia falaciosa, mistificadora,
do empreendedor. É uma das poucas alternativas que o mundo do
trabalho oferece frente à corrosão dos direitos e garantias sociais. É
isso ou o desemprego completo.
É por isso que o empreendedorismo é poderoso ideologicamente,
porque é isso ou nada. Ao mesmo tempo, a maioria expressiva dos
empreendedores vive aos solavancos.
Entrevista com o sociólogo Ricardo Antunes, em 14 set. 2019. Disponível em: https://uol.com.br/
empregos-e-carreiras. Acesso em: 02 abr.2022.
A afirmação que apresenta um ponto de vista oposto ao defendido
pelo entrevistado é