Leia a crônica a seguir.:
Sempre disseram que o presente que a pessoa recebe
revela o caráter, ou pelo menos a imagem que os outros
têm dela. Ninguém dá livros para quem não lê, discos
para quem não gosta de música, roupa para quem vive
amarfanhado. É a lógica. E é o que tem me deixado com
pulgas atrás da orelha – e o inseto incomoda.
Se isso for mesmo verdade, devo estar mal falado: só
ganho garrafa de cachaça. De uns tempos para cá, uma
boa variedade de pingas chegou às minhas mãos.
Amigos viajam, trazem uma garrafa; e ainda há
embalagem de presentes corporativos, brindes e agrados
de conhecidos.
Não é cangibrina no sentido lato, que envolve outros
tipos de destilado. É restrito à produção da cana-deaçúcar mesmo. Não tenho do que reclamar além, óbvio,
da desconfiança que isso traz a respeito da minha
respeitabilidade. Se o Detran descobre, vai fazer ponto
na minha rua; se o banco fica sabendo, tranca a conta;
se a família desconfiar, interdita.
Melhor esclarecer: como não sou passarinho, bebo.
Mas educadamente, com a parcimônia dos ajuizados e a
fleuma dos justos.
A ‘marvada’ já teve inimigos ferozes, como o senador
Paulo Abreu que, em 1951, tentou proibir a fabricação,
comércio e consumo do produto. A desculpa é que se
tratava de um “mal social”.
Fragorosamente derrotado, o parlamentar ainda
tentou proibir marchinhas de carnaval que tinham a
cambraia ou seus efeitos como tema, como Ressaca (“tá
todo mundo de ressaca”), Cachaça (“não é água não”) e
Tem Nego Bebo Aí (“foi numa casca de banana que
pisei”). Falhou de novo.
Atualmente, a caninha não está mais à margem da
sociedade, foi incorporada como bebida que pode ser
apreciada e não apenas para virar o juízo nas melhores
– ou piores – horas da existência. O preço das garrafas
mais prestigiadas vai às alturas e há algum tempo são
realizados ranqueamentos com jurados especialistas
(olha eles de novo!) que elegem os melhores rótulos, o
que, evidentemente, aumenta o preço.
Manguaças tradicionais vêm sendo preteridas em
nome de produções mais sofisticadas, tanto para as
brancas como para as amarelas, para seguir a
nomenclatura da poesia de Laureano e Raul Torres, no
clássico Moda da Pinga, eternizado por Inezita Barroso.
A exceção é a velha Havana, de Salinas, com 75 anos de
história, mesmo rótulo e paladar para bolsos abastados,
sempre no topo das listas.
Confesso que não dou importância para rótulos. A
birita produzida em pequena escala, para consumo
familiar, envelhecida em barris de madeira de sabor
menos pronunciado ou mesmo no aço para manter a
brancura, ainda estão entre as favoritas. Uma provinha
resolve o problema, sem a necessidade de um corpo de
jurados.
Na verdade, a terembitina é só uma desculpa para
estar com amigos; portanto, é bom começar a mudar a
lógica de acreditar que quem ganha garrafas é um
pinguço. Ao contrário, é apenas um sujeito que tem bons
amigos – e se isso não é verdade, é bom consolo.
Portanto, continuarei recebendo os mimos etílicos. De
bom grado.
PESTANA, Paulo. Presentes engarrafados. Correio
Braziliense, 27 de março de 2022. Blog. Disponível em:
https://blogs.correiobraziliense.com.br/paulopestana/presentes-engarrafados/. Acesso em: 28 mar. 2022.