A loteria genética
O morticínio e as iniquidades provocados por ideias
supostamente científicas sobre genes e raças são conhecidos. Em boa medida por causa desse histórico sombrio, parte
da sociedade passou as últimas décadas ignorando, quando
não combatendo, pesquisas no campo da genética humana,
particularmente da genética comportamental. Não é uma
estratégia particularmente brilhante. Um dos maus hábitos da
realidade é que ela não vai embora só porque você não gosta
dos resultados que ela produz.
Esse panorama começou a mudar nos últimos anos, com
a publicação de livros escritos por cientistas com agenda
abertamente progressista que mostram que os genes são
relevantes para o comportamento humano. “The Genetic
Lottery”, de Kathryn Paige Harden, é uma dessas obras. Seu
maior mérito é apresentar e desmitificar o problema. Genes
importam não só no âmbito individual mas também para
os grandes desafios sociais, como a igualdade. O peso da
genética no desempenho escolar de uma criança é igual ao
da renda dos pais, ou seja, bem forte. E o desempenho escolar, vale lembrar, é uma variável-chave na definição da renda,
felicidade e até do número de anos que a pessoa vai viver.
Harden faz um apanhado bem didático dos tipos de pesquisa genética que existem, as diferenças entre eles e como
interpretá-los. Embora o senso comum pense os genes como
determinantes, seu efeito sobre a maioria das características
que nos interessam é muito mais probabilístico. Bons genes
no ambiente errado não fazem milagres. E um ambiente propício pode fazer com que mesmo alguém que não tenha sido
favorecido pela loteria genética se saia bem.
Uma boa analogia é com a miopia. Ela é 100% genética,
mas depende de certas condições ambientais para manifestar-se. Mais importante, mesmo quando ela dá as caras, a sociedade tem uma solução não genética 100% eficaz: óculos.
(Hélio Schwartsman. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/
helioschwartsman/2021/12/a-loteria-genetica.shtml. 18.12.2021. Adaptado)
Considerando a relação com sentido de oposição que a
frase que inicia o 2º parágrafo estabelece com as informações do parágrafo anterior, essa relação de sentido
permanece corretamente preservada com a inserção da
conjunção destacada em: