Em uma sociedade desigual, aqueles que alcançam
o topo querem acreditar que seu sucesso tem justificativa
moral. Em uma sociedade de meritocracia*
, isso significa que
os vencedores devem acreditar que conquistaram o sucesso
através do próprio talento e empenho. Quem entra em uma
universidade pública de prestígio com credenciais brilhantes
se orgulha da conquista e considera que o fez por conta própria. Mas isso, de certa forma, é ilusório. Ainda que seja verdade o fato de a entrada refletir dedicação e empenho, não
se pode dizer que foi somente resultado da própria ação. E o
que dizer a respeito de pai, mãe e professores que ajudaram
ao longo do caminho? E a sorte de viver em uma sociedade que cultiva e recompensa os talentos que eles por acaso
têm?
As pessoas que, por meio de um pouco de esforço e
talento, prevalecem em uma meritocracia ficam endividadas
de uma forma que a competição ofusca. À medida que a
meritocracia se intensifica, o esforço nos absorve tanto que
o fato de estarmos endividados sai de vista. Dessa maneira,
até mesmo uma meritocracia justa, uma em que não haja trapaça, ou suborno, ou privilégios especiais para os ricos, induz
a uma impressão equivocada: de que chegamos lá por conta
própria. Os anos de árduo esforço exigidos de candidatos a
universidades de elite praticamente os obriga a acreditar que
o sucesso deles é resultado das próprias ações, e, se fracassarem, não terão a quem culpar, a não ser a si mesmos.
Esse é um fardo pesado para pessoas jovens carregarem. Além disso, corrói sensibilidades cívicas. Porque quanto
mais pensarmos em nós como pessoas que vencem pelo
próprio esforço e que são autossuficientes, mais difícil será
aprender a ter gratidão e humildade. E sem esses sentimentos é difícil se importar com o bem comum.
O ingresso em universidades não é a única ocasião
para discussões sobre mérito. Na política contemporânea,
há uma abundância de debates acerca de quem merece o
quê. Na superfície, esses debates são sobre o que é justo –
todo mundo tem oportunidades verdadeiramente iguais para
competir por bens desejáveis e posições sociais? No entanto,
nossas discordâncias a propósito do mérito não são apenas em relação a ser justo mas também quanto a como definimos
sucesso e fracasso, vencer e perder, e o comportamento que
vencedores devem direcionar àqueles menos bem-sucedidos
do que eles. Essas são questões bastante pesadas e que
tentamos evitar, até o momento em que elas se lançam sobre
nós. Precisamos perguntar se a solução para nossa política
conflituosa é viver mais fielmente pelo princípio do mérito ou
buscar um bem comum além da classificação e da luta.
* meritocracia: sistema de recompensa e/ou promoção fundamentado no mérito pessoal
(Michael J. Sandel. A tirania do mérito:
o que aconteceu com o bem comum? Trad. Bhuvi Libanio. – 4ª ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021. Excerto adaptado)
Assinale a alternativa em que as palavras extraídas do
texto recebem acento em atendimento à mesma regra de
acentuação gráfica, de acordo com a norma-padrão da
língua portuguesa.