Malandro, preguiçoso, astuto e dado a ser fanfarrão: eis
a figura do Arlequim. Sedutor, ele tenta roubar a namorada do
Pierrot, a Colombina.
Ele seduz porque é esperto (mais do que inteligente),
ressentido (como quase todos nós), cheio de alegria (como
desejamos) e repleto de uma vivacidade que aprendemos a
admirar na ficção, ainda que um pouco cansativa na vida real.
Como em todas as festas, admiramos o palhaço e, nem por
isso, desejamos tê-lo sempre em casa.
Toda escola tem arlequim entre alunos e professores.
Todo escritório tem o grande “clown”. Há, ao menos, um tio
arlequinal por família. Pense: virá a sua cabeça aquele homem
ou mulher sempre divertido, apto a explorar as contradições do
sistema a seu favor e, por fim, repleto de piadas maliciosas e
ligeiramente canalhas. São sempre ricos em gestos de mímica, grandes contadores de causos e, a rigor, personagens permanentes. Importante: o divertido encenador de pantomimas
necessita do palco compartilhado com algum Pierrot. Sem a
figura triste do último, inexiste a alegria do primeiro. Em toda
cena doméstica, ocorrem diálogos de personagens polarizadas, isso faz parte da dinâmica da peça mais clássica que você
vive toda semana: “almoço em família”.
O Arlequim é engraçado porque tem a liberdade que o
mal confere a quem não sofre com as algemas do decoro.
Aqui vem uma maldade extra: ele nos perdoa dos nossos
males por ser, publicamente, pior do que todos nós. Na prática, ele nos autoriza a pensar mal, ironizar, fofocar e a vestir
todas as carapuças passivo-agressivas porque o faz sem culpa. O Arlequim é um lugar quentinho para aninhar os ódios
e dores que eu carrego, envergonhado. Funciona como uma
transferência de culpa que absolve meus pecadilhos por ser
um réu confesso da arte de humilhar.
Você aprendeu na infância que é feio rir dos outros quando caem e que devemos evitar falar dos defeitos alheios.
A boa educação dialogou de forma complexa com nossa
sedução pela dor alheia. O que explicaria o trânsito lento para
contemplar um acidente, o consumo de notícias de escândalos de famosos e os risos com “videocassetadas”? Nossos pequenos monstrinhos interiores, reprimidos duramente
pelos bons costumes da aparência social, podem receber
ligeira alforria em casos de desgraça alheia e da presença de
um “arlequim”. Os seres do mal saem, riem, alegram-se com
a dor alheia, acompanham a piada e a humilhação que não
seria permitida a eles pelo hospedeiro e, tranquilos, voltam a
dormir na alma de cada um até a próxima chamada externa.
Olhar a perversidade do Arlequim é um desafio. A mirada
frontal e direta tem um pouco do poder paralisante de uma
Medusa. Ali está quem eu abomino e, ali, estou eu, meu inimigo e meu clone, o que eu temo e aquilo que atrai meu
desejo. Ser alguém “do bem” é conseguir lidar com nossos
próprios demônios como única chance de mantê-los sob controle. Quando não consigo, há uma chance de eu apoiar todo
Arlequim externo para diminuir o peso dos meus.
O autoconhecimento esvazia o humor agressivo dos
outros. Esta é minha esperança.
(Leandro Karnal, A sedução do Arlequim.
O Estado de S.Paulo, 26.12.2021. Adaptado)
Assinale a alternativa que expressa, nos colchetes, construção de acordo com a norma-padrão de colocação pronominal, a partir de enunciados adaptados do texto.