Ainda me lembro de meu pai. Era um homem alto e bonito, com uns olhos grandes e um bigode preto. Sempre que
estava comigo, era a me beijar, a me contar histórias, a me
fazer os gostos. Tudo dele era para mim. Eu mexia nos seus
livros, sujava as suas roupas, e meu pai não se importava. Às
vezes, porém, ele entrava em casa calado. Sentava-se numa
cadeira ou passeava pelo corredor com as mãos para trás, e
discutia muito com minha mãe. Gritava, dizia tanta coisa, ficava com uma cara de raiva que me fazia medo. E minha mãe
saía para o quarto aos soluços. Eu não sabia compreender
o porquê de toda aquela discussão. Sei que, com um pouco
mais, lá estava ele com a minha mãe aos beijos. E o resto da
noite, até ir me deitar, era só com ela que ele estava, com os
olhos vermelhos de ter chorado também.
Eu o amava porque o que eu queria fazer ele consentia,
e brincava comigo no chão como um menino da minha idade.
Depois é que vim a saber muita coisa a seu respeito: que era
um temperamento excitado, um nervoso, para quem a vida
só tivera o seu lado amargo. A sua história, que mais tarde
conheci, era a de um arrebatado pelas paixões, a de um coração sensível demais às suas mágoas. Coitado do meu pai!
Parece que ainda o vejo quando saía de casa levado pelos
soldados, no dia de seu crime. Que ar de desespero ele levava, no rosto de moço! E o abraço doloroso que me deu nessa
ocasião! Vim a compreender, com o tempo, porque tinha se
deixado levar ao desespero. O amor que tinha pela esposa
era o amor de um louco.
(José Lins do Rego, Menino de Engenho. 94 ed.
Rio de Janeiro:
José Olympio, 2007. Excerto adaptado)
Assinale a alternativa em que, com a alteração da posição do pronome destacado, conforme indicado nos parênteses, a redação permanece em conformidade com a
norma-padrão.