Texto
Chimpanzés usam insetos para tratar
feridas, mostra novo estudo
Os chimpanzés criam e usam ferramentas, como já sabemos.
Mas é possível que eles também usem medicamentos para tratar
seus ferimentos? Um novo estudo sugere que sim.
Desde 2005, pesquisadores vêm estudando uma comunidade
de aproximadamente 45 chimpanzés no Parque Nacional Loango,
no Gabão, na costa oeste da África. Em um período de 15 meses,
de novembro de 2019 a fevereiro de 2021, os pesquisadores
notaram 76 feridas abertas em 22 chimpanzés. Em 19 casos eles
viram um deles realizar o que parecia um autotratamento da
ferida, usando um inseto como remédio. Em alguns casos, um
chimpanzé parecia tratar outro. Os cientistas publicaram suas
observações na revista Current Biology na segunda-feira (7).
O procedimento era semelhante em todas as ocasiões.
Primeiro, os chimpanzés pegavam um inseto voador; depois o
imobilizavam, apertando-o entre os lábios. Aí colocavam o inseto
sobre a ferida, movendo-o em círculo com as pontas dos dedos.
Finalmente, retiravam o inseto, usando a boca ou os dedos. Com
frequência eles colocavam o inseto na ferida e o retiravam
diversas vezes.
Os pesquisadores não sabem que inseto os chimpanzés
usavam, ou exatamente como ele pode ajudar a curar um
ferimento. Sabem que eram pequenos insetos voadores de cor
escura. Não há evidência de que os chimpanzés comam os
insetos – eles com certeza os espremem entre os lábios e os
aplicam sobre os ferimentos.
Há outros relatos de automedicação em animais, incluindo
cães e gatos que comem capim ou plantas, provavelmente para
fazê-los vomitar, e ursos e veados que consomem plantas
medicinais, aparentemente para se automedicar. Orangotangos
foram vistos aplicando material para aliviar lesões musculares.
Mas os pesquisadores não sabem de relatos anteriores de
mamíferos não humanos usarem insetos para fins medicinais.
Em três casos, os pesquisadores viram os chimpanzés usarem
a técnica em outro chimpanzé. Em um deles, uma fêmea adulta
chamada Carol cuidou de um ferimento na perna de um macho
adulto, Littlegrey. Ela pegou um inseto e o deu a Littlegrey, que o
colocou entre os lábios e o aplicou na ferida. Mais tarde, Carol e
outro macho adulto foram vistos esfregando o inseto em torno
da ferida de Littlegrey. Outro macho adulto se aproximou, retirou
o inseto da ferida, colocou-o entre seus lábios e depois o
reaplicou na perna de Littlegrey.
Um chimpanzé macho adulto chamado Freddy era um grande
entusiasta da medicina com insetos, tratando-se diversas vezes
de ferimentos na cabeça, nos braços, região dorsal, o pulso
esquerdo e o pênis. Um dia, os pesquisadores o viram tratar-se
duas vezes do mesmo ferimento no braço. Os pesquisadores não
sabem como Freddy se feriu, mas alguns casos provavelmente
envolviam brigas com outros machos.
Alguns animais cooperam com outros de maneiras
semelhantes, segundo Simone Pika, diretora do laboratório de
cognição animal na Universidade de Osnabruck, na Alemanha,
que é um dos autores do estudo. “Mas não sabemos de qualquer
outro caso em mamíferos”, disse ela. “Pode ser um
comportamento adquirido que só existe nesse grupo. Não
sabemos se nossos chimpanzés são especiais nesse sentido.”
Aaron Sandel, antropólogo na Universidade do Texas em
Austin, achou o trabalho valioso, mas ao mesmo tempo
manifestou certas dúvidas. “Eles não oferecem uma explicação
alternativa para o comportamento, nem fazem conexão com que
inseto poderia ser", disse. "O salto para uma potencial função
médica é um exagero, nesta altura.”
Mas, disse ele, “cuidar de seus próprios ferimentos ou de
outros usando um instrumento, outro objeto, é muito raro”. A
documentação dos chimpanzés cuidando de outros é “uma
importante contribuição para o estudo do comportamento social
dos macacos”, acrescentou Sandel. “E é interessante também
perguntar se há empatia envolvida nisso, como nos humanos.”
Em algumas formas de comportamento social de macacos,
fica claro que há uma troca valiosa. Por exemplo, pentear outro
chimpanzé oferece alívio dos parasitas para o animal penteado,
mas também um lanche de insetos para o que penteia. Mas em
casos que Pika observou, segundo disse, o chimpanzé não recebe
nada em troca. Para ela, isso mostra que os macacos estão
envolvidos num ato que aumenta “o bem-estar de outro ser” e
nos ensina mais sobre os relacionamentos sociais dos primatas.
“Em cada observação em campo aprendemos mais sobre os
chimpanzés”, disse ela. “Eles realmente nos surpreendem.”
(Nicholas Bakalar. The New York Times. Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.
Fevereiro de 2022.)
Em relação ao que é possível inferir da leitura do texto, analise as
afirmativas a seguir:
I. O comportamento dos primatas descrito no texto levanta o
questionamento se os relacionamentos sociais entre eles se
dariam somente por troca ou se há uma forma de uma
doação de um membro da espécie a outro.
II. Como o trabalho apresenta valiosas contribuições para a
Ciência, naturalmente o comportamento dos macacos dará
ao ser humano mais conhecimento acerca da propriedade do
tratamento com aqueles determinados insetos.
III. O comportamento observado naqueles chimpanzés pode não
representar uma característica de toda a espécie, uma vez
que não foi observado nada semelhante em outros
exemplares fora daquele grupo social em específico.
Assinale