“Cada língua indígena é um reservatório único de
conhecimento medicinal”. Assim escrevem os pesquisadores
Rodrigo Cámara-Leret e Jordi Bascompte em um recente estudo
que faz um alerta: o perigo do desaparecimento de antigos
conhecimentos de plantas medicinais a partir da extinção das
línguas indígenas.
Em geral, quando se fala em plantas com propriedades
medicinais, as discussões giram em torno da extinção da
biodiversidade. Nessa pesquisa, contudo, os cientistas focaram no
que costuma ser esquecido: o impacto da extinção das línguas para a
perda desse conhecimento, tradicionalmente transmitido oralmente.
Antes de tudo, a equipe do estudo precisava entender em que
medida acontecia a perda de conhecimento linguisticamente único.
No caso das plantas medicinais, era preciso entender em que
grau o conhecimento delas estava atrelado a apenas uma língua
indígena. Dessa forma, seria possível compreender quais saberes
seriam perdidos no caso de extinção de determinado idioma.
Para isso, os pesquisadores analisaram três conjuntos de
dados etnobotânicos (a ciência que estuda a relação entre humanos e
plantas). Eles contavam com cerca de 3,6 mil plantas medicinais,
236 línguas indígenas e 12,5 mil “serviços de plantas medicinais” —
combinações entre espécies de plantas e a subcategoria medicinal
para a qual elas eram indicadas, como “figueira-brava (Ficus
insipida) + sistema digestivo”. Os dados são referentes a três regiões
com grande diversidade linguística e biológica: América do Norte,
noroeste da Amazônia e Nova Guiné.
Depois de analisarem os dados, os cientistas apontaram
que o conhecimento indígena sobre as plantas medicinais está, de
fato, apoiado na singularidade linguística. No noroeste da
Amazônia, 91% do conhecimento medicinal não é compartilhado
entre línguas — e se concentra em apenas um idioma. Em Nova
Guiné, essa taxa é de 84%; na América do Norte, 73%.
Além disso, eles observaram a porcentagem desse
conhecimento que se concentra, especificamente, em línguas
ameaçadas de extinção. Na América do Norte, 86% do
conhecimento medicinal único ocorre, justamente, em idiomas
em risco. No noroeste da Amazônia, 100%.
Para os cientistas, uma das hipóteses é a alta rotatividade
cultural. Isso significa que, para uma mesma planta, os povos
indígenas possuem diversos conhecimentos e aplicações
exclusivos. Sem uma Wikipédia para reunir informações, cada
cultura acumulou, ao longo do tempo, as próprias descobertas
sobre cada espécie.
O estudo ajuda a mostrar que cada língua (e cultura) indígena
tem percepções únicas que, inclusive, podem vir a oferecer seus
conhecimentos medicinais também a outras sociedades.
Internet: <super.abril.com.br> (com adaptações).