A Amazon pega, mata e come
Foi-se embora a Livraria São José, sebo mais antigo do
Rio de Janeiro, fundado há 85 anos – e todo mundo acha
normal. Ora, tudo não está morrendo ao nosso redor? Por
que livrarias, logo elas, iriam escapar à destruição que atinge
o país inteiro? É a vida – ou a morte – que segue.
Em sua fase espetacular – entre as décadas de 40 e 60 –,
a São José chegou a ter três lojas e estoque de 100 mil livros.
Tornou-se editora e promoveu tardes de autógrafos. A primeira
foi um luxo: “Itinerário de Pasárgada”, de Manuel Bandeira, em
1954. Eram concorridíssimas – não se sabe se pelos autores
ou se pelas “madrinhas” deles, beldades como Tônia Carrero
e Odette Lara.
Ponto de encontro de intelectuais, estudantes e buquinadores1
profissionais, fuçando nas estantes e bancadas
poderiam ser vistos lado a lado figuras tão díspares como o
ex-presidente Eurico Gaspar Dutra e o romancista Lúcio Cardoso. Matando aula na Faculdade Nacional de Filosofia, foi
lá que o cronista Ruy Castro começou sua invejada coleção
de livros.
Não “essenciais”, as livrarias cariocas estão fechadas
para cumprir o recesso sanitário. É um setor do comércio
que, com a pandemia, recorreu sobretudo à atividade online.
Melhor do que ninguém a Amazon sabe disso e se aproveita
para complicar ainda mais a vida de livreiros e editores. Em
recente e-mail, a gigante norte-americana pediu descontos
maiores e aumento na cobrança de taxas de marketing.
Na arte do oportunismo, a Amazon é o carcará de João
do Vale na seca do sertão: pega, mata e come2
.
1Buquinar: buscar e comprar livros usados em livrarias, bancas, sebos.
2Referência à letra da música “Carcará”, de João do Vale.
(Alvaro Costa e Silva. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/
alvaro-costa-e-silva/2021/03/a-amazon-pega-mata-e-come.shtml.
29.03.2021. Adaptado)
Nesse texto, o autor analisa um dos assuntos também
tratado no texto anterior, destacando