TEXTO 03
A Pêndula
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na
cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas
todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o
bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque
soturno, vagaroso e seco, parecia dizer a cada golpe que
eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um
velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e da
morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a
contá-las assim:
- Outra de menos...
- Outra de menos...
- Outra de menos...
- Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe
corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu
pudesse contar todos os meus instantes perdidos.
Invenções há, que se transformam ou acabam; as
mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e
perpétuo; o derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e
gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora
exata em que morre. Naquela noite não padecí essa triste
sensação de enfado, mas outra, e deleitosa. As fantasias
tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, à
semelhança de devotas que se abalroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos,
mas os minutos ganhados; e de certo tempo em diante
não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento,
ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as
asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de
uma janela o pensamento de Virgília, saudaram-se e
ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com
frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos,
a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva.
(ASSIS, Machado de. Obra Completa. Vol. I. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 199, p. 61-62)
Assinale a opção em que as palavras apresentadas
flexionam-se no plural pelas mesmas regras de tique-taque, sol, direção e peitoril, respectivamente.