Saúde mental
Fui convidado por uma empresa a dar uma palestra sobre saúde mental. Aceitei sem pensar muito. Sou
psicanalista e devo saber o que é saúde mental. Quando a data se aproximava, pus-me a pensar e descobri que
eu não sabia o que era saúde mental. Para uma empresa, quando é que um funcionário tem saúde mental? Ele
tem saúde mental quando os seus pensamentos e emoções não interferem no seu desempenho na empresa: não
falta, produz, tem boas relações. A empresa usa para avaliar o seu funcionário os mesmos critérios de avaliação
da “saúde” de uma peça de uma máquina. Peça boa é aquela que não exige reparos e funciona sempre. Para
que isso aconteça é preciso que a peça esteja totalmente ajustada à “ideia” da máquina. Assim, um funcionário
com saúde mental é aquele cuja alma está ajustada à alma da empresa. Ajustamento produz contentamento.
Aí comecei a pensar nos homens que tenho no meu coração. Foram todos desajustados e infelizes. Van Gogh,
Walter Benjamin e Maiakóvski cometeram suicídio. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida.
Então, as pessoas que amo não tinham saúde mental. Não eram ajustadas. Então, por que as amo? Pelas coisas
que elas produziram. As pessoas ajustadas são indispensáveis para fazer as máquinas funcionar. Mas só as
desajustadas pensam outros mundos. A criatividade vem do desajustamento. Imagine que nossa sociedade é
louca. As evidências dizem que sim. Estar ajustado a essa sociedade é estar ajustado à sua loucura. Então, há
um tipo de “saúde mental” que é uma manifestação de loucura. Mas aqueles que são lúcidos, que percebem a
loucura da sociedade e sofrem com ela, desajustados, são os que verdadeiramente têm saúde mental.
(Rubem Alves - Ostra feliz não faz pérola).
O texto faz uso de um recurso estilístico para compor sua argumentação, que toma por base a noção de