Deixem eu ser brasileiro!
Sou tradutor profissional há mais de vinte e cinco
anos e a experiência acumulada nesse tempo me confere
uma cristalina certeza: os revisores que trabalham nas
nossas editoras pertencem a uma seita secreta com a
missão de boicotar ao máximo o português brasileiro,
impedir que ele se consagre na língua escrita para
preservar tanto quanto possível a norma-padrão obsoleta
que eles julgam ser a única forma digna de receber o
nome de “língua portuguesa”.
Sempre fico irritado quando recebo os meus
exemplares de tradutor e, ao reler o que escrevi, encontro
uma infinidade de “correções" que representam a
obsessão paranoica de expurgar do texto escrito qualquer
“marca de oralidade”, qualquer característica propriamente
brasileira de falar e de escrever o português. É
sistemático, é premeditado (só pode ser). Todos os “num"
e “numa” que uso são devidamente desmembrados em
“em um” e "em uma”, como se essas contrações,
presentes na língua há mais de mil anos, fossem algum
tipo de vício de linguagem. Me pergunto por que não
fazem o mesmo com “nesse”, "nisso" etc., ou com “no" e
“na”. Por que essa perseguição estúpida ao “num”,
“numa"? O mesmo acontece com o uso de "tinha" na
formação do mais-que-perfeito composto: "tinha visto",
“tinha dito”, "tinha falado” são implacavelmente
transformados em “havia visto" etc., embora qualquer
criancinha saiba que o verbo "haver", no português
brasileiro, é uma espécie em extinção, confinada a
raríssimos ecossistemas textuais...
É claro que o sintoma mais visível e gritante desse
boicote consciente ao português brasileiro é a putrefacta
colocação pronominal. A próclise, isto é, o pronome antes
do verbo, é veementemente combatida, ainda que ela seja
a única regra natural de colocação dos pronomes oblíquos
na nossa língua. O combate é tão furibundo que até
mesmo onde a tradição gramatical exige a próclise ela é
ignorada, e os livros saem com coisas como “não
conheço-te”, “já formei-me”, “porque viram-nos”. Isso para
não mencionar a jurássica mesóclise, que alguns
necrófilos ainda acham que é uma opção de colocação
pronominal, desprezando o fato de que se trata de um
fenômeno gramatical morto e enterrado na língua dos
brasileiros há séculos.
Senhoras revisoras e senhores revisores, (...) saiam
de sua redoma de vidro impermeável às mudanças da
língua (...) ouçam os apelos de José de Alencar, Mário de
Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto
tempo pedem, suplicam, imploram: deixem eu falar e
escrever na minha língua, na língua que é a única capaz
de expressar meus sentimentos, emoções e ideias! Deixem eu ser brasileiro, deixem eu escrever para ser
entendido peios meus contemporâneos!
BAGNO, Marcos. Caros Amigos, São Paulo, v.1, n.1, p.
39-42, fev. 2009. Adaptado
Em “É claro que o sintoma mais visível e gritante desse
boicote" (3°§), o vocábulo “claro” pode ser substituído, sem
que haja prejuízo semântico, por