Encontros e desencontros
Hoje, jantando num pequeno restaurante aqui
perto de casa, pude presenciar, ao vivo, uma cena que já
me tinham descrito. Um casal de meia idade se senta à
mesa vizinha da minha. Feitos os pedidos ao garçom, o
homem, bem depressinha, tira o celular do bolso, e não
mais o deixa, a merecer sua atenção exclusiva. A mulher,
certamente de saber feito, não se faz de rogada e apanha
um livro que trazia junto à bolsa. Começa a lê-lo a partir da
página assinalada por um marcador. Espichando o meu
pescoço inconveniente (nem tanto, afinal as mesas eram
coladinhas) deu para ver que era uma obra da Martha
Medeiros.
Desse modo, os dois iam usufruindo suas gulodices,
sem comentários, com algumas reações dele, rindo com
ele mesmo com postagens que certamente ocorriam em
seu celular. Até dois estranhos, postos nessa situação,
talvez acabassem por falar alguma coisa. Pensei: devem
estar juntos há algum tempo, sem ter mais o que
conversar. Cada um sabia tudo do outro, nada a
acrescentar, nada de novo ou surpreendente. E assim
caminhava, decerto, a vida daquele casal.
O que me choca, mesmo observando esta situação,
como outras que o dia a dia me oferece, é a ausência de
conversa. Sem conversa eu não vivo, sem sua força
agregadora para trocar idéias, para convencer ou ser
convencido pelo outro, para manifestar humor, para
desabafar sobre o que angustia a alma, em suma, para
falar e para ouvir. A conversa não é a base da terapia? Sei
não, mas, atualmente, contar com um amigo para jogar
conversa fora ou para confessar aquele temor que lhe está
roubando o sossego talvez não seja fácil. O tempo
também, nesta vida corre-corre, tem lá outras prioridades.
Mia Couto é contundente: “Nunca o nosso mundo teve ao
seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a
nossa solidão. " Até se fala muito, mas ouvir o outro? Falo
de conversas entre pessoas no mundo real. Vive-se hoje,
parece, mais no mundo digital. Nele, até que se conversa
muito; porém, é tão diferente, mesmo quando um está
vendo o outro. O compartilhamento do mesmo espaço,
diria, é que nos proporciona a abrangência do outro, a
captação do seu respirar, as batidas de seu coração, o
seu cheiro, o seu humor...
Desse diálogo é que tanta gente está sentindo falta.
Até por telefone as pessoas conversam, atualmente, bem
menos. Pelo whatsApp fica mais fácil, alega-se.
Rapidinho, rapidinho. Mas e a conversa? Conversa-se,
sim, replicam. Será? Ou se trocam algumas palavras?
Quando falo em conversa, refiro-me àquelas que se
esticam, sem tempo marcado, sem caminho reto, a
pularem de assunto em assunto. O whatsApp é de graça,
proclamam. Talvez um argumento que pode ser robusto,
como se diz hoje, a favor da utilização desse instrumento
moderno.
Mas será apenas por isso? Um amigo me lembra:
nos whatsApps se trocam mensagens por escrito. Eu sei.
Entretanto, língua escrita é outra modalidade, outro modo
de ativar a linguagem, a começar pela não copresença
física dos interlocutores. No telefone, não há essa
copresença física, mas esse meio de comunicação não é
impeditivo de falante e ouvinte, a cada passo, trocarem de
papéis e até mesmo de falarem ao mesmo tempo, configurando, pois, características próprias da modalidade
oral. Contudo, não se respira o mesmo ar, ainda que já se
possa ver o outro. As pessoas passaram a valer-se menos
do telefone, e as conversas também vão, por isso,
tornado-se menos frequentes.
Gosto, mesmo, é de conversas, de preferência com
poucos companheiros, sem pauta, sem temas censurados,
sem se ter de esmerar na linguagem. Conversa sem
compromisso, a não ser o de evitar a chatice. Com suas
contundências, conflitos de opiniões e momentos de
solidariedade. Conversa que é vida, que retrata a vida no
seu dia a dia. No grupo maior, há de tudo: o louco, o
filósofo, o depressivo, o conquistador de garganta, o
saudosista ...Nem sempre, é verdade, estou motivado
para participar desses grupos. Porém, passado um tempo,
a saudade me bate.
Aqueles bate-papos intimistas com um amigo de
tantas afinidades, merecedores que nos tornamos da
confiança um do outro, esses não têm nada igual. A
apreensão abrangente do amigo, de seu psiquismo, dos
seus sentimentos, das dificuldades mais íntimas por que
passa, faz-nos sentir, fortemente, a nossa natureza
humana, a maior valia da vida.
Esses momentos vão se tornando, assim me
parece, uma cena menos habitual nestes tempos digitais.
A pressa, os problemas a se multiplicarem, as tarefas a se
diversificarem, como encontrar uma brecha para aquela
conversa, que é entrega, confiança, despojamento?
Conversa que exige respeito: um local calminho, sem
gritos, vozes esganiçadas, garçons serenos. Sim, umas
tulipas estourando de geladas e uns tira-gostos de nosso
paladar a exigirem nova pedida. Não queria perder esses
encontros. Afinal, a vida está passando tão depressa...
Adaptado de: UCHOA, Carlos Eduardo. Disponível
em: http://carloseduardouchoa.com.br/blog/
No contexto, o termo destacado em "[...] trocarem de
papéis e até mesmo de falarem ao mesmo tempo,
configurando, pois, características próprias da modalidade
oral." (5°§) expressa a ideia de