Otimismo
O otimismo é o vinho tinto das emoções. Uma ou duas taças
por dia fazem um bem enorme. Duas garrafas arruínam a pessoa.
A diferença do volume da bebida ilustra os dois tipos de
otimismo, o racional, uma das conquistas evolutivas mais
preciosas da espécie, e o irracional, a fonte de grandes tragédias
históricas e fracassos pessoais. A média das mais amplas
pesquisas já conduzidas sobre o tema revela que cerca de 80%
das pessoas são otimistas. Essa é a parcela da humanidade capaz
de enxergar o copo meio cheio. A outra parcela, a minoria, cuja
mente vê o mesmo copo meio vazio, tem uma única vantagem
sobre a maioria, pois, como diz o ditado, “o pessimista só tem
boas surpresas”.
Os otimistas têm más surpresas e são capazes de assimilá-las
e transformar o azedume em doce limonada. Eles vivem mais e
têm maior resistência às doenças. Quando presos a um leito de
hospital, são eles que têm maior chance de cura. Essas pessoas
ousam mais, poupam mais e aposentam-se mais tarde. Se a
consciência da morte torna o pessimismo inerente à condição
humana, o instinto vital se alimenta do otimismo para que a ideia
da finitude não nos enlouqueça.
As pessoas mais interessantes são os otimistas com os pés
bem plantados no chão. São os arquitetos do futuro, que tomam
uma ou mais taças diárias do vinho da ousadia. São as
personalidades com um olho nas lições do passado e o outro nas
questões do presente e nos desafios do futuro. São, ao mesmo
tempo, raízes e asas. Ilusão e realidade.
(Revista Veja, 23 de janeiro de 2013 – texto adaptado)