
Durante toda a minha trajetória escolar, nunca vi nos professores apenas um caminho para ganhar
algum conhecimento em matemática, geografia, literatura. Para mim, eles eram muito mais.
Na menor brecha que abriam, eu sugava de meus mestres formas de compreender os momentos
embaçados da vida, formas de fazer a minha realidade melhor. Professor é o mundo todo sintetizado em giz,
apagador e tutano.
Na adolescência, uma professora marcou minhas lembranças para sempre ao me emprestar, juro,
apenas emprestar, a antologia poética do Drummond, que tinha capa dura verde e páginas em um papel tão
fino que parecia que a qualquer momento iria se desintegrar. Li quase inteira, aprendi de um tudo.
"É para você se inspirar para o amor, refletir sobre a dureza da existência, engrossar o couro para o
futuro. O poeta foi comedor de arroz com feijão igual a nós todos, mas deixou a alma viajar por grandes
banquetes", dizia um bilhete da professora.
Talvez não seja muito pedagógico para os que ensinam estreitar laços com os que devem aprender,
pois isso poderia gerar conflitos de autoridade, confusão com as tarefas atribuídas aos pais. Mas as batalhas
abertas atualmente no ambiente escolar trazem a mim uma nostalgia danada daquele tempo em que a mesa do
professor era coberta de flores do campo - muito mais campo do que flores -, doce caseiro, desenhos, poesias
e outros mimos levados pela criançada.
Para mim, o professor foi um bálsamo salvador das pequenas e grandes angústias de ser um menino
incomum fisicamente na escola. /.../
Bastava um exemplo, algumas palavras seguras, uma recomendação de um livro. Um mestre que
repita o mantra "acredite que vai dar tudo certo, vá em frente, que é possível" faz toda a diferença.
Em outra situação estudantil, fui atrevido a ponto de ir à casa de um dos mestres (no interior do país,
tem dessas coisas). Eu precisava como em uma emergência sufocante saber até quando eu teria de esperar para
viver um grande amor, afinal, eu "já" tinha 16 anos. 0 professor me recebeu, levou totalmente a sério a minha
dúvida e recomendou o melhor remédio de todos para os desesperados: "Tenha paciência. Seu tempo vai
chegar".
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Jairo Marques. Folha de São Paulo, 11/10/2011. Disponível em<http://wwwl .folha.uol.br/fsp/cotidian/ffl 110201105.htm> . Acesso em 27/10/16. (fragmento)
Observe a passagem: "Tenha paciência. Seu tempo vai chegar." Mantém-se seu sentido original em