Sobre o mar e o navio
Na guerra naval, existem ainda algumas peculiaridades
que merecem ser abordadas.
Uma delas diz respeito ao cenário das batalhas: o mar.
Diferente, em linhas gerais, dos teatros de operações
terrestres, o mar não tem limites, não tem fronteiras
definidas, a não ser nas proximidades dos litorais, nos
estreitos, nas baias e enseadas.
Em uma batalha em mar aberto, certamente, poderão ser
empregadas manobras táticas diversas dos engajamentos
efetuados em área marítima restrita. Nelas, as forças navais
podem se valer das características geográficas locais, como
fez o comandante naval grego Temístocles, em 480 a .C . ao
atrair as forças persas para a baía de Salamina, onde pôde
proteger os flancos de sua formatura, evitando o
envolvimento pela força naval numericamente superior dos
invasores persas.
As condições meteorológicas são outros fatores que
também afetam, muitas vezes de forma drástica, as operações
nos teatros marítimos, O mar grosso, os vendavais, ou mesmo
as longas calmarias, especialmente na era da vela, são
responsáveis por grandes transtornos ao governo dos navios,
dificultando fainas e manobras e, não poucas vezes,
interferindo nos resultados das ações navais ou mesmo
impedindo o engajamento. É oportuno relembrar que o vento e
a força do mar destruíram as esquadras persa (490 a . C .) ,
mongol (1281) e a incrível Armada Espanhola (1588), salvando
respectivamente a Grécia, o Japão (que denominou de kamikaze
o vento divino salvador) e a Inglaterra daqueles invasores
vindos do mar.
O cenário marítimo também é o responsável pela causa
mortis da maioria dos tripulantes dos navios afundados nas
batalhas navais, cujas baixas por afogamento são certamente
mais numerosas do que as causadas pelos ferimentos dos
impactos dos projéteis, dos estilhaços e dos abalroamentos.
Em maio de 1941, o cruzador de batalha britânico HMS Hood,
atingido pelo fogo da artilharia do Bismarck, afundou, em
poucos minutos, levando para o fundo cerca de 1.400
tripulantes, dos quais apenas três sobreviveram.
Aliás, o instante do afundamento de um navio é um
momento crucial para a sobrevivência daqueles tripulantes
que conseguem saltar ou são jogados ao mar, pois o efeito da
sucção pode arrastar para o fundo os tripulantes que
estiverem nas proximidades do navio no momento da submersão.
Por sua vez, os náufragos podem permanecer dias, semanas em
suas balsas à deriva, em um mar batido pela ação de ventos,
continuamente borrifadas pelas águas salgadas, sofrendo o
calor tropical escaldante ou o frio intenso das altas
latitudes, como nos mares Ártico, do Norte ou Báltico, cujas
baixas temperaturas dos tempos invernais limitam cabalmente
o tempo de permanência n 'água dos náufragos, tornando
fundamental para a sua sobrevivência a rapidez do socorro
prestado.
O navio também é um engenho de guerra singular. Ao
mesmo tempo morada e local de trabalho do marinheiro, graças
à sua mobilidade, tem a capacidade de conduzir homens e
armas até o cenário da guerra. Plataforma bélica plena e
integral, engaja batalhas, sofre derrotas, naufraga ou
conquista vitórias, tornando-se quase sempre objeto
inesquecível da história de sua marinha e país.
(CESAR, William Carmo. Sobre o mar e o navio. In:____ . Uma
história das Guerras Navais: o desenvolvimento tecnológico
das belonaves e o emprego do Poder Naval ao longo dos
tempos. Rio de Janeiro: FEMAR, 2013. p. 396-398)
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