TEXTO 2
Leia o texto abaixo e responda a questão
Começam a pipocar alguns debates sobre as consequências de se
passar tanto tempo conectado à internet. Já se fala em "saturação
social", inspirado pelo recente depoimento de um jornalista do
"The New York Times" que afirmou que sua produtividade no trabalho
estava caindo por causa do tempo consumido por Facebook, Twitter e
agregados , e que se vê hoje diante da escolha entre cortar seus
passeios de bicicleta ou "alguns desses hábitos digitais que estão
me comendo vivo".
Antropofagia virtual. O Brasil, pra variar, está atrasado
(aqui, dois terços dos usuários ainda atualizam seus perfis
semanalmente), pois no resto do mundo já começa a ser articulado
um movimento de desaceleração dessa tara por conexão: hotéis
europeus prometem quartos sem wi-fi como garantia de férias
tranquilas, empresas americanas desenvolvem programas de softwares
que restringem o acesso a web, e na Ásia crescem os centros de
recuperação de viciados em internet. Tudo isso por uma simples
razão: existir é uma coisa, viver é outra.
Penso, logo existo. Descartes teria que reavaliar esse seu
cogitor ergo sum, pois as pessoas trocaram o verbo pensar por
postar. Posto, logo existo.
Tão preocupadas em existir para os outros, as pessoas estão
perdendo um tempo valioso em que poderiam estar vivendo, ou seja,
namorando, indo à praia, trabalhando, viajando, lendo, estudando,
cercados não por milhares de seguidores, mas por umas poucas
dezenas de amigos. Isso não pode ter se tornado tão obsoleto.
Claro que muitos usam as redes sociais como uma forma de
aproximação, de resgate e de compartilhamento - numa boa. Se a
pessoa está no controle do seu tempo e não troca o virtual pelo
real, está fazendo bom uso da ferramenta. Mas não tem sido a
regra. Adolescentes deixam de ir a um parque para ficarem,
trancafiados em seus quartos, numa solidão disfarçada de
socialização. Isso acontece dentro da minha casa também, com
minhas filhas, e não adianta me descabelar, elas são frutos da sua
época, os amigos se comunicam assim, e nem batendo com um gato
morto na cabeça delas pra fazê-las entender que a vida está lá
fora. Lá fora!! Não me interessa que elas existam pra Tati, pra
Rô, pro Cauê. Quero que elas vivam.
O grau de envolvimento delas com a internet ainda é mediano e
controlado, mas tem sido agudo entre muito jovens sem noção, que
se deixam fotografar portando armas, fazendo sexo, mostrando o
resultado de suas pichações, num exibicionismo triste, pobre, desvirtuado. São garotos e garotas que não se sentem com a
existência comprovada, e para isso se valem de bizarrices na
esperança de deixarem de ser "ninguém" para se tornarem "alguém",
mesmo que alguém medíocre.
Casos avulsos, extremos, mas estão ai, ao nosso redor. Gente
que não percebe a diferença entre existir e viver. Não entendem
que é preferível viver, mesmo que discretamente, do que existir de
mentirinha para 17.870 que não estão nem ai.
(MEDEIROS, Martha. Posto, logo existo. Revista O Globo, 25 ma r . 2012, p . 26)
Em que opção a reescritura do trecho "Tão preocupadas em
existir para os outros, as pessoas estão perdendo um tempo valioso
em que poderiam estar vivendo, [...]." (4°§) manteve seu
significado?