Aumenta o número de adultos que não consegue focar sua
atenção em uma única coisa por muito tempo. São tantos os
estímulos e tanta a pressão para que o entorno seja
completamente desvendado que aprendemos a ver e/ou fazer
várias coisas ao mesmo tempo. Nós nos tornamos, à semelhança
dos computadores, pessoas multitarefa, não é verdade?
Vamos tomar como exemplo uma pessoa dirigindo. Ela precisa
estar atenta aos veículos que vêm atrás, ao lado e à frente,
à velocidade média dos carros por onde trafega, às
orientações do GPS ou de programas que sinalizam o trânsito
em tempo real, às informações de alguma emissora de rádio
que comenta o trânsito, ao planejamento mental feito e
refeito várias vezes do trajeto que deve fazer para chegar
ao seu destino, aos semáforos, faixas de pedestres etc.
Quando me vejo em tal situação, eu me lembro que dirigir,
após um dia de intenso trabalho no retorno para casa, já foi
uma atividade prazerosa e desestressante.
O uso da internet ajudou a transformar nossa maneira de
olhar para o mundo. Não mais observamos os detalhes, por
causa de nossa ganância em relação a novas e diferentes
informações. Quantas vezes sentei em frente ao computador
para buscar textos sobre um tema e, de repente, me dei conta
de que estava em temas que em nada se relacionavam com meu
tema primeiro.
Aliás, a leitura também sofreu transformações pelo nosso
costume de ler na internet. Sofremos de uma tentação
permanente de pular palavras e frases inteiras, apenas para
irmos direto ao ponto. O problema é que alguns textos exigem
a leitura atenta de palavra por palavra, de frase por frase,
para que faça sentido. Aliás, não é a combinação e a
sucessão das palavras que dá sentido e beleza a um texto?
Se está difícil para nós, adultos, focar nossa atenção,
imagine, caro leitor, para as crianças. Elas já nasceram
neste mundo de profusão de estímulos de todos os tipos; elas
são exigidas, desde o início da vida, a dar conta de várias
coisas ao mesmo tempo; elas são estimuladas com diferentes
objetos, sons, imagens etc.
Aí, um belo dia elas vão para a escola. Professores e pais,
a partir de então, querem que as crianças prestem atenção em
uma única coisa por muito tempo. E quando elas não
conseguem, reclamamos, levamos ao médico, arriscamos
hipóteses de que sejam portadoras de síndromes que exigem
tratamento etc.
A maioria dessas crianças sabe focar sua atenção, sim. Elas
já sabem usar programas complexos em seus aparelhos
eletrônicos, brincam com jogos desafiantes que exigem
atenção constante aos detalhes e, se deixarmos, passam horas
em uma única atividade de que gostam.
Mas, nos estudos, queremos que elas prestem atenção no que é
preciso, e não no que gostam. E isso, caro leitor, exige a
árdua aprendizagem da autodisciplina. Que leva tempo, é bom
lembrar.
As crianças precisam de nós, pais e professores, para
começar a aprender isso. Aliás, boa parte desse trabalho é
nosso, e não delas.
Não basta mandarmos que elas prestem atenção: isso de nada
as ajuda. O que pode ajudar, por exemplo, é analisarmos o
contexto em que estão quando precisam focar a atenção e
organizá-lo para que seja favorável a tal exigência. E é
preciso lembrar que não se pode esperar toda a atenção delas
por muito tempo: o ensino desse quesito no mundo de hoje é
um processo lento e gradual.
SAYÃO, Rosely. Profusão de estímulos. Folha de São Paulo, 11
fev. 2014 - adaptado.
Assinale a opção em que as palavras destacadas
recebem, respectivamente, a mesma classificação quanto à
acentuação gráfica que as palavras sublinhadas em "Se está
difícil para nós, adultos[...]. Elas já nasceram neste
mundo de profusão de estímulos[...]." (6°§).