Para responder à questão, leia um trecho do conto “A pátria”, do escritor Olavo Bilac (1865-1918), o Patrono do
Serviço Militar. Não por acaso, a sua data de nascimento, 16
de dezembro, foi consagrada como Dia do Reservista.
1?????O pai, velho soldado que a vida das guerras alquebrara1
,
gostava de lembrar, à noite, quando toda a família se reunia na
sala de jantar em roda da grande mesa antiga, os episódios
das campanhas que vira.
A mulher não ouvia com prazer aquelas histórias de cargas de cavalaria, de emboscadas, de assaltos, tão cheias de
sangue e de horror. Quando o velho recordava aquele tempo,
ela revivia a angústia dos dias passados na solidão, sem notícias do marido que lá andava pelo Paraguai. Lembrava-se da
ansiedade e do medo com que esperava o correio, naquelas
amaldiçoadas tardes de desespero. Quando o carteiro lhe entregava um envelope fechado, — quantos minutos ficava ela
a mirar e a revolver nas mãos aquele pedaço de papel que
vinha do querido ausente, e que tinha recebido os seus beijos
e as suas lágrimas de saudade!
Por fim abria a carta. A princípio não podia ler. Tremia-lhe
nos dedos o papel. Tinha de repousar um pouco: e, quando
conseguia terminar a leitura, ficava abatida e sem consolo
diante daquelas notícias que não variavam nunca. Era sempre
a mesma coisa: não se sabia quando acabaria a guerra; mas
Deus velava por ele; era preciso assegurar, conquistando um
bom posto, um futuro feliz para os filhos; além disso a Pátria
estava acima de tudo...
Ela amarrotava a carta... A Pátria! que era a Pátria, para
valer mais do que ela, mais do que aquelas duas crianças, pobres inocentes que talvez a essa mesma hora já estivessem
sem pai? Ia então contemplar os filhos, e ali ficava chorando,
horas inteiras...
5??????Quando o pai voltou da guerra, vinha major. Fora ferido.
Perdera uma perna. A mulher abençoou essa desgraça. Ao menos, assim mutilado, ficava ele posto à margem, dispensado
de voltar à mesma existência de perigos e canseiras. Podiam
viver modestamente com seu soldo2. Qualquer outro trabalho
leve de que se pudesse encarregar dar-lhe-ia o suficiente para
educar os filhos. Agora, porém, quando o velho major, durante
os serões domésticos, começava a contar os seus episódios de
campanha, a mulher estremecia.
No entusiasmo da narração, o velho transfigurava-se. O
seu braço, estendido no ar, indicava os golpes de espada. A
sua voz imitava, ora o ruído contínuo e seco da fuzilaria, ora o
estrondo rouco dos canhoneios. Diante dele, Carlos, também
transfigurado, bebia as suas palavras, com inveja, respirando
a custo, agitando-se na cadeira. E a mãe quase rebentava
em soluços, vendo a alegria do filho. Era aquele, há muito
tempo, o seu maior receio... Pobre mãe! Desde o tempo em
que apenas devia pensar em bonecos, o menino manifestava
uma grande predileção pelas coisas da vida militar.
Ficava horas inteiras contemplando as fardas do pai: e, à
noite, deixando de estudar, fechando sobre a mesa as suas
gramáticas e os seus dicionários, era ele o primeiro a pedir
ao velho mais uma daquelas narrações que o embriagavam.
Quando foi preciso escolher uma carreira, Carlos, sem hesitação, declarou que queria ir para a Escola Militar. O velho
exultou3. A mulher, resignada, não teve protesto.
(Olavo Bilac & Coelho Neto. Contos pátrios, 1906. Adaptado.)
1 alquebrar: dobrar ou sofrer curvatura da espinha por doença, fraqueza ou
velhice.
2 soldo: salário de militares.
3
?exultar: exprimir grande alegria.
Pode ser atribuído valor de posse ao pronome sublinhado no
seguinte trecho: