TEXTO III
A BOLA
Luís Fernando Veríssimo
O pai deu uma bola de presente ao filho.
Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira
bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro.
Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era
uma bola. O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e
disse "Legal!". Ou o que os garotos dizem hoje em dia
quando gostam do presente ou não querem magoar ?
velho. Depois começou a girar a bola, à procura de
alguma coisa.
- Como é que liga? - perguntou.
- Como, como é que liga? Não se liga. O garoto
procurou dentro do papel de embrulho.
- Não tem manual de instrução?
O pai começou a desanimar e a pensar que os
tempos são outros. Que os tempos são decididamente
outros.
- Não precisa manual de instrução.
- O que é que ela faz?
- Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela.
- O quê?
- Controla, chuta...
- Ah, então é uma bola.
- Claro que é uma bola.
- Uma bola, bola. Uma bola mesmo.
- Você pensou que fosse o quê?
- Nada, não.
O garoto agradeceu, disse "Legal" de novo, e dali
a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola
nova do lado, manejando os controles de um videogame.
Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de blip
eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se
destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha
coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da
máquina. O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas
embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé,
como antigamente, e chamou o garoto.
- Filho, olha.
O garoto disse "Legal" mas não desviou os olhos
da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou,
tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola
cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse
uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se
interessar.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias para se
ler na escola. Seleção e apresentação de Ana Maria
Machado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.(Adaptado)
Assinale dentre as opções dadas aquela que nomeia
corretamente a figura de linguagem demonstrada pela
expressão em destaque no fragmento "Conseguiu
equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e
chamou o garoto." (§16).