O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
O ranking da mobilidade no mundo
Como são os padrões de mobilidade em cada país?
Quanto as cidades dependem do automóvel? Quanto se
anda a pé em cada lugar? Um estudo gigantesco
chamado ABC of Mobility, publicado em março deste
ano, conseguiu traçar um mapa de 794 cidades ao redor
do mundo para responder a essas perguntas.
Todas essas cidades foram colocadas num triângulo que
tem três vértices: carro, transporte público e mobilidade
ativa. O resultado é provavelmente um dos maiores
levantamentos do gênero e é riquíssimo para entender a
diferença entre as cidades.
A urbanização das cidades americanas e canadenses,
tomadas por vias expressas, com subúrbios ricos que
dependem totalmente do automóvel, é expressa com
clareza pelo estudo.
À medida de comparação, 94% dos deslocamentos são feitos em carro, muito mais do que os 50% das cidades
europeias. Atlanta deve ser o caso mais emblemático de
esgarçamento urbano. Apenas 1% de seus habitantes se
deslocam a pé ou bicicleta, o que a coloca no finzinho do
ranking mundial.
Não existe um padrão europeu de mobilidade. Se em
Roma ou Manchester quase 70% das pessoas
dependem do carro para se deslocar, a Europa do Norte
pródiga no oposto. Em Copenhague, 47% de todos os é
habitantes andam ou pedalam para o trabalho. Esse
número vai a 75% numa cidade como Utrecht, na
Holanda.
Nas maiores cidades europeias o transporte público
oferece alternativa ao carro: 45% dos londrinos e 60%
dos parisienses vão de transporte público ao trabalho.
Não por acaso, Londres e Paris têm malhas de
transporte invejáveis, mas também são cidades que têm
políticas explícitas de desestimular o uso do carro,
diminuindo espaços e até cobrando pedágio para entrar
no centro. Hoje, a capital francesa já tem mais gente
andando a pé que de carro.
O estudo mostra que os deslocamentos em transporte público aumentam com o tamanho da cidade.
Na média global das cidades de 100 mil habitantes,
transporte público representa 10% das viagens, mas
aumenta para 25% nas cidades com mais de um milhão
de habitantes. Nas metrópoles com mais de 20 milhões,
esse número ultrapassa 40%.
A exceção a essa regra são EUA, Canadá e Austrália.
Nesses países, as cidades pequenas mantêm mais de
90% de seus deslocamentos em automóvel.
Na outra ponta, a campeã do ranking é uma cidade de
300 mil habitantes em Moçambique, Quellimane, onde
91% das pessoas vão a seus afazeres diários a pé ou em bicicleta.
A China tem enorme participação de bicicletas e do pé
nos deslocamentos, mas provavelmente esse númerodeve mudar rapidamente, uma vez que, quanto maior a
renda per capita, maior a participação do automóvel. No
resto da Ásia, porém, há brilhantes exceções, como as
cidades densas que têm alta renda e enorme
participação do transporte público, como Tóquio e
principalmente Hong Kong.
Apenas quatro cidades brasileiras entraram no estudo:
São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba.
Elas apresentam um quadro parecido que mostra um
certo equilíbrio entre os modais. São Paulo, na verdade,
a é cidade que fica bem no meio do triângulo do estudo
global, com praticamente um terço dos deslocamentos
para cada modo de transporte.
Essa situação expõe uma contradição: o maior modal é o
andar a pé, mas o maior objeto de desejo é o carro. As
infraestruturas existentes privilegiam o carro, mas os
congestionamentos gigantes demonstram um ponto de
exaustão. Por outro lado, o descaso histórico com o
transporte público expõe o tamanho do desafio, tanto na
qualidade como na capilaridade das redes de transporte.
Ao redor do mundo, o pico do uso do carro ainda não
chegou, mas é sintomático que cidades ricas, como
Paris, Barcelona, Viena e tantas outras, estejam
justamente investindo no transporte público, na bicicleta
na caminhabilidade para reduzir emissão de gases e e
melhorar a experiência urbana.
A boa mobilidade deve integrar mobilidade ativa e transporte público. A seguir, uma amostra do estudo com
algumas cidades para dar uma ideia da disparidade
entre elas, baseando-se em dois aspectos: andar a pé e
por bicicleta. O ranking completo está disponível na
revista The Economist e na plataforma ScienceDirect.
Para comparar dados de 794 cidades no mundo, os
pesquisadores Rafael Prieto-Curiel, do Complexity
Science Hub, e Juan Pablo Ospina, da EAFIT University,
consultaram aproximadamente mil bases de dados
diferentes. Isso permite juntar informações de cidades
em diferentes continentes, mas gera algumas limitações
nas comparações.
Como algumas cidades misturam transporte a pé e
bicicleta, a pesquisa juntou tudo em "mobilidade ativa".
Outra limitação é considerar apenas deslocamentos para
trabalho, além da ausência das cidades médias dos o
países subdesenvolvidos. Finalmente, o estudo
desconsidera as viagens multimodais, em que as
pessoas trocam de meios de transporte, por exemplo,
andando de sua casa até o ponto de ônibus.
Mesmo com essas limitações, a pesquisa tem o mérito
de dar um quadro geral a algo muito fragmentado e vai
ser um grande estímulo para novos estudos.
Mauro Calliari.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/.
Acesso em: 12 jul. 2024.