O ANJO DA NOITE
O guarda-noturno caminha com delicadeza, para
não assustar, para não acordar ninguém. Lá vão seus
passos vagarosos, cadenciados, cosendo a sua sombra com
a pedra da calçada. Vagos rumores de bondes, de ônibus,
os últimos veículos, já sonolentos, que vão e voltam quase
vazios. O guarda-noturno, que passa rente às casas, pode
ouvir ainda a música de algum rádio, o choro de alguma
criança, um resto de conversa, alguma risada. Mas vai
andando. A noite é serena, a rua está em paz, o luar põe
uma névoa azulada nos jardins, nos terraços, nas fachadas:
o guarda-noturno para e contempla.
À noite, o mundo é bonito, como se não houvesse
desacordos, aflições, ameaças. Mesmo os doentes
parecem que são mais felizes: esperam dormir um pouco à
suavidade da sombra e do silêncio. Há muitos sonhos em
cada casa. É bom ter uma casa, dormir, sonhar. O gato
retardatário que volta apressado, com certo ar de culpa,
num pulo exato galga o muro e desaparece; ele também
tem o seu cantinho para descansar. O mundo podia ser
tranquilo. As criaturas podiam ser amáveis. No entanto, ele
mesmo, o guarda-noturno, traz um bom revólver no bolso,
para defender uma rua...
E se um pequeno rumor chega ao seu ouvido e um
vulto parece apontar da esquina, o guarda-noturno torna a
trilar longamente, como quem vai soprando um longo
colar de contas de vidro. E recomeça a andar, passo a
passo, firme e cauteloso, dissipando ladrões e fantasmas.
É a hora muito profunda em que os insetos do jardim estão
completamente extasiados, ao perfume da gardênia e à
brancura da lua. E as pessoas adormecidas sentem, dentro
de seus sonhos, que o guarda-noturno está tomando conta
da noite, a vagar pelas ruas, anjo sem asas, porém
armado.
Cecília Meireles