Leia o texto abaixo e responda ao que se pede.
De volta pra casa
Nos aeroportos, o cenário já me parecera realidade
paralela de ficção científica. Estaria eu personagem de um
filme ou de um livro? Todo mundo de máscara, alguns de
luvas. Pessoas quietas, silenciosas, tentando manter
espaço entre si. Cenário fantasmagórico. Estranhamento
total.
Primeiro, paraliso-me concentrando apenas em estar ali,
me dou uns momentos para sentir que estou em casa. Do
ângulo em que me encontro observo a sala e a cozinha. Há
algumas horas atrás saíra do hotel com o motorista da
empresa, para o aeroporto. Álcool em gel, lavar as mãos
com sabão.
Segundo, observo mala, mochila e bolsa na porta, levo
para a área de serviço, esvazio e coloco quase tudo na
máquina de lavar. Passo álcool em gel, água sanitária.
Papéis, computador, na bancada de pedra na cozinha;
descalço os tênis também na área. Limpo as solas. Estão lá
até hoje, abertas, higienizadas e não tenho coragem de
guardá-las. Idem os tênis. Não toquei mais, até parece
trauma.
Terceiro, olho a geladeira, o freezer, bem abastecido. Na
véspera, meu filho cozinhara, levara mantimentos e me
dissera ao telefone: “quando chegares, tu não sais mais!”
Frango ao catupiry, carne assada ao molho, arroz, lentilha,
lasanha, vários potes. Frutas, legumes, ovos, leite, massa,
mel. Produtos de limpeza. Filho de ouro! Começo a me
conscientizar sobre o que poderia significar uma
quarentena. E vou descansar, que o primeiro voo saíra às 3
da manhã e estou insone.
Começo a trabalhar online, o que já costumo fazer.
Revisões e orientações, álcool em gel, lavar as mãos com
sabão, relato do trabalho que realizara em março, álcool
em gel, lavar as mãos com sabão. Telefonemas e
mensagens de Whatzapp. Álcool em gel, lavar as mãos
com sabão, noticiários na TV, séries e filmes
na Netflix, sarau literário por google meet, como é bom
rever o grupo! Mais disciplinado do que nunca por conta
do encontro virtual, ninguém fala ao mesmo tempo.
Que vírus danado!
Que mexida na ordem, que caos
instalado! No 4º dia senti tontura, caminho meio torta pela
casa, chequei se seria sintoma do corona, mas não.
Qualquer arranhadinho na garganta lá ia eu para o
termômetro. E vá gargarejo com água morna e sal. Litros
de chá e água. Como tenho rinite alérgica e tosse de
refluxo, às vezes pensava, “será o corona”? E dê-lhe
desinfecção, álcool, água sanitária, desinfetante. E não
deixar louça suja, meu pior pesadelo: o tempo de cozinha,
de máquina de lavar, de limpar a casa, de lavar gêneros
alimentícios. Essa higienização diária vai me deixar maluca!
Inicia uma reconstrução do dia a dia, novo cotidiano, álcool
em gel, lavar as mãos com sabão. Enclausurada, sem
liberdade de ir e vir, em contrapartida outras liberdades a
serem exercidas. Não me abato. Mas reconheço que me
sinto controlada, sem saber que novo mecanismo é esse.
Gosto de estar em casa sozinha. Sempre tenho mil coisas
para fazer: pensar, imaginar, arrumar, organizar, ler.
Porém esse jeito compulsório e com esse vírus lá fora
ameaçando, não é nada confortável.
O cara da fruteira se despediu após me entregar as sacolas
no portão do edifício, e depois do ritual do pagamento
com a maquininha envolta em papel filme (será que
adianta?), ia saindo com meu cartão enfiado na máquina.
Gritei, ei, meu cartão! Ele se voltou pedindo desculpas.
Todo o mundo atrapalhado, álcool em gel, lavar as mãos
com sabão. Uso máscara e luvas quando desço pra colocar
o lixo e buscar a correspondência e o jornal. O novo
mundo com Corona vírus. Álcool em gel, lavar as mãos
com sabão. A vida em suspenso. A rua antes tão disputada
para estacionamento, agora vazia, desfigurada.
Finalmente os 14 dias!! para ter certeza de que não
retornei da viagem infectada. Mas não consigo me sentir
aliviada. “O mundo, como o conhecemos, não existe mais”,
ouço na TV. Frase forte. Meu sistema imunológico fraco.
Aglomerações, não uso de máscara, quebra do isolamento
social. O ser humano se mostra mais onipotente, ignorante
e alienado como nunca. Mecanismo maciço de negação.
Mais do que medo! Um viruzinho que nem vivo é, uma
proteína revestida, um microrganismo invisível, tão letal e
perigoso, colocando o mundo de joelhos. Às vezes ainda
perpassa uma sensação de irrealidade. Pandemia.
Zanzo pela casa durante o dia, passando por diversos
estados de espírito: indignada, perplexa, compassiva,
alarmada, vulnerável, repugnada, assustada, raivosa,
envergonhada, fragilizada, impotente, raramente
tranquila, álcool em gel, lavar as mãos com sabão. Respira
a terra, gorjeiam as águas, limpa-se o ar. E morrem as
pessoas.
Minhas mãos nunca estiveram tão cheirosas nas 24 horas
do dia. Mesmo cortando cebola, elas rescendem a
perfume. Mordo a cenoura crua, cansada de lavar panelas.
Meus dentes hão de aguentar.
Berenice S. Lamas (Texto adaptado)
O despertar da personagem para a realidade da pandemia
se observa no: