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Quando o efêmero dura
Uma das mais fabulosas tecnologias humanas é a escrita. Ela nos permitiu ampliar a memória para horizontes inimagináveis. Não fosse por ela, jamais teríamos atingido os níveis de acúmulo, transmissão e integração de conhecimento
que logramos obter e, provavelmente, não diferiríamos muito
de nossos ancestrais do Neolítico.
Uma tecnologia tão poderosa não poderia passar sem
deixar marcas. De início, poucos dominavam as letras, de
modo que saber ler e escrever se tornou uma distinção de
classe social. À medida que surgiram tecnologias mais eficientes de reprodução (prensa) e o ensino público se popularizou, o alfabetismo se tornou quase universal.
No nível comportamental, havia uma divisão bastante
clara entre a comunicação formal, calculada, destinada a durar (escrita), e aquela mais íntima, vaga (oral), que, justamente por não deixar traços, podia operar como uma sonda da
sociabilidade, testando relacionamentos, fofocando, às vezes
até zombando e insultando. O ex-presidente Temer apropriadamente matou a charada ao proclamar: “verba volant, scripta manent” (as palavras faladas voam, as palavras escritas
permanecem).
O problema é que as tecnologias não pararam de evoluir,
dando lugar a computadores, celulares, aplicativos de mensagem, redes sociais etc. As pessoas vêm cada vez mais
usando a escrita para comunicar-se no registro informal, que
contava com o caráter efêmero da fala. Pior, a reprodutibilidade e transmissão de diálogos privados se tornaram potencialmente infinitas, sem falar do hackeamento.
O resultado é uma explosão de curtos-circuitos sociais,
nos quais mensagens concebidas para circular entre poucos
ganham ampla difusão. Às vezes a divulgação é de interesse
público, mas, em outros casos, ela só azeda amizades, compromete namoros ou intoxica o ambiente de trabalho. Vejo
com certa preocupação a redução dos espaços de experimentação social, onde é lícito falar bobagem.
(Hélio Schwartsman. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2019 /11/quando-o-efemero-dura.shtml Adaptado.)
De acordo com a norma-padrão de emprego dos pronomes, a substituição da expressão destacada na frase
pela expressão entre parênteses está correta em: