Texto I
Naquele tempo o mundo era ruim. Mas depois
se consertara, para bem dizer as coisas ruins não
tinham existido. No jirau da cozinha arrumavam-se
mantas de carne-seca e pedaços de toicinho. A sede
não atormentava as pessoas, e à tarde, aberta a
porteira, o gado miúdo corria para o bebedouro. Ossos
e seixos transformavam-se às vezes nos entes que
povoavam as moitas, o morro, a serra distante e os
bancos de macambira.
Como não sabia falar direito, o menino
balbuciava expressões complicadas, repetia as sílabas,
imitava os berros dos animais, o barulho do vento, o
som dos galhos que rangiam na catinga, roçando-se.
Agora tinha tido a ideia de aprender uma palavra, com
certeza importante porque figurava na conversa de
sinha Terta. Ia decorá-la e transmiti-la ao irmão e à
cachorra. Baleia permaneceria indiferente, mas o irmão
se admiraria, invejoso.
- Inferno, inferno.
Não acreditava que um nome tão bonito
servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir
com sinha Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido
ao inferno, bem. Sinha Vitória impunha-se, autoridade
visível e poderosa. Se houvesse feito menção de
qualquer autoridade invisível e mais poderosa, muito
bem. Mas tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote,
e isto lhe parecia absurdo. Achava as pancadas
naturais quando as pessoas grandes se zangavam,
pensava até que a zanga delas era a causa única dos
cascudos e puxavantes de orelhas. Esta convicção
tornava-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes
de se dirigir a eles. Animara-se a interrogar sinha Vitória
porque ela estava bem-disposta. Explicou isto à
cachorrinha com abundância de gritos e gestos.
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro/São Paulo:
Record, 2009, p. 59-60)