Filho
Não existe isso que chamam de reprodução. Quando
duas pessoas decidem ter um bebê, elas se envolvem em um
ato de “produção”, e o uso generalizado da palavra “reprodução” para essa atividade, com a implicação de que duas
pessoas estão quase se trançando juntas, é na melhor das
hipóteses um eufemismo para confortar os futuros pais antes
que se metam em algo que não podem controlar. Nas fantasias subconscientes que fazem a concepção parecer tão
sedutora, muitas vezes é nós mesmos que gostaríamos de
ver viver para sempre, e não alguém com uma personalidade própria. Tendo previsto a marcha para a frente de nossos
genes egoístas, muitos de nós não estamos preparados para
filhos que apresentam necessidades desconhecidas. A paternidade nos joga abruptamente em uma relação permanente
com um estranho, e quanto mais alheio o estranho, mais forte
a sensação de negatividade. Contamos com a garantia de
ver no rosto de nossos filhos que não vamos morrer. Filhos
cuja característica definidora aniquila a fantasia da imortalidade são um insulto em particular: devemos amá-los por si
mesmos, e não pelo melhor de nós mesmos neles, e isso é
muito mais difícil de fazer. Amar nossos próprios filhos é um
exercício para a imaginação.
Mas o sangue, tanto na sociedade moderna como nas
antigas, fala mais alto. Pouca coisa é mais gratificante do que
filhos bem-sucedidos e dedicados, e poucas situações são
piores do que o fracasso ou a rejeição filial. Na medida em
que nossos filhos se parecem conosco, eles são nossos admiradores mais preciosos, e, na medida em que são diferentes, podem ser os nossos detratores mais veementes. Desde
o início, nós os instigamos a nos imitar e ansiamos pelo que
talvez seja o elogio mais profundo da vida: o fato de eles
escolherem viver de acordo com nosso sistema de valores.
Embora muitos de nós sintam orgulho por ser diferentes dos
pais, ficamos infinitamente tristes ao ver como nossos filhos
são diferentes de nós.
(Andrew Solomon. Longe da árvore: pais,
filhos e a busca da identidade, 2013. Adaptado)