Conquista ameaçada
A combinação de desleixo com orgulho ignorante está
causando avarias numa das grandes façanhas da humanidade,
que é o controle de doenças através da vacinação. Em
2019, o sarampo, que já foi citado por autoridades sanitárias
como moléstia passível de erradicação, ressurgiu com força
em várias partes do mundo. Quedas na cobertura vacinal,
em parte por preguiça, em parte por militância religiosa/
ideológica, são o principal motivo.
Pior, especialistas já temem que algo semelhante ocorra
com a poliomielite. Essa doença, que já esteve muito perto de
ser eliminada (em 2017 registraram-se apenas 22 casos em
todo o mundo), pode reaparecer em qualquer comunidade
que tenha um número suficientemente grande de crianças
não imunizadas.
É estranha a nossa relação psicológica com as vacinas.
Elas, ao lado do saneamento básico, compõem os dois
conjuntos de medidas que mais fizeram para reduzir a carga
de doenças e morte que sempre afligiram nossa espécie,
mas temos enorme dificuldade para reconhecer isso.
O caso mais emblemático talvez seja o de Maurice
Hilleman. Poucos leitores terão ouvido falar desse cientista
americano, mas ele é provavelmente a pessoa que mais salvou
vidas no planeta. Hilleman, morto em 2005, desenvolveu mais
de 40 vacinas, incluindo a tríplice viral ou MMR, usada contra
o sarampo, e outras oito que fazem parte da maioria dos
programas de vacinação infantil do mundo.
Seria um exagero dizer que Hilleman morreu na obscuridade. Seus pares sempre o reconheceram como um gigante,
mas, num movimento que espelha bem nossa relação meio
esquisita com as vacinas, seu nome é quase ignorado do
público não especializado. Pior, em vez de ganhar um ou
dois prêmios Nobel, aos quais decerto fez jus, o que recebeu
foram mensagens de ódio e até ameaças depois que a “fake
news” de que a MMR causava autismo ganhou corações e
mentes no final dos anos 90.
(Hélio Schwartsman. Folha de S.Paulo, 22.09.2019)
A alternativa em que a expressão entre colchetes substitui
a destacada, segundo a norma-padrão de regência, é: