Aí por volta das cinco da tarde, Dalila entra no escritório
e fica olhando para mim. Não late, não gane, não esperneia.
Apenas espera. Se insisto em continuar diante do computador,
ela eriça as orelhas numa repreensão muda. Levanto-me,
passo a coleira em torno do seu pescoço e desço com ela
as escadas.
Dalila passa o dia em casa aguardando esses 10 ou 15
minutos de passeio na rua, quando pode percorrer um espaço
maior e cheirar à vontade. Um palmo de terreno, monótono e
insípido para nós, pode ser para ela uma excursão turística
de cheiros. Seu olfato capta gradações que ultrapassam
de muito os limites para os quais nossas narinas estão
equipadas.
Ela me puxa pela coleira e vai sugando o chão com as
narinas. Parece um aspirador vivo na ânsia de absorver
os menores resíduos olfativos da paisagem, e sairá dessa
experiência plenificada. Enquanto isso, eu me desligo das
sensações em volta, pensando. Tudo para depois, friamente,
redigir um texto diante do computador.
(Chico Viana. Cheiros e choro. https://cronicascariocas.com,
13.10.2019. Adaptado)
O sinal indicativo da crase está empregado corretamente
na seguinte frase escrita a partir do texto: