Vidinha
Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita
como de movediça e leve; um soprozinho, por brando que
fosse, a fazia voar, outro de igual natureza a fazia revoar, e
voava e revoava na direção de quantos sopros por ela
passassem; isto quer dizer, em linguagem chã e despida
dos trejeitos da retórica, que ela era uma formidável
namoradeira, como hoje se diz, para não dizer lambeta,
como se dizia naquele tempo.
Portanto não foram de modo algum mal recebidas as
primeiras finezas do Leonardo, que desta vez se tornou
muito mais desembaraçado, quer porque já o negócio com
Luisinha o tivesse desasnado, quer porque agora fosse a
paixão mais forte, embora esta última hipótese vá de
encontro à opinião dos ultrarromânticos, que põem todos
os bofes pela boca pelo tal primeiro amor: no exemplo que
nos dá o Leonardo aprendam o quanto ele tem de
duradouro.
Se um dos primos de Vidinha, que dissemos ser o
atendido naquela ocasião, teve motivos para levantar-se
contra o Leonardo como seu rival, o outro primo, que
dissemos ser o desatendido, teve dobrada razão para isso,
porque além do irmão apresentava-se o Leonardo como
segundo concorrente, e o furor de quem se defende contra
dois é, ou deve ser sem dúvida, muito maior do que o de
quem se defende contra um.
Declarou-se, portanto, desde que começaram a
aparecer os sintomas do quer que fosse entre Vidinha e o
nosso hóspede, guerra de dois contra um, ou de um contra
dois. A princípio foi ela surda e muda; era guerra de
olhares, de gestos, de desfeitas, de más caras, de maus
modos de uns para com os outros; depois, seguindo o
adiantamento do Leonardo, passou a dictérios, a chasques,
a remoques.
Um dia finalmente desandou em descompostura
cerrada, em ameaças do tamanho da Torre de Babel, e foi
causa disto ter um dos primos pilhado o feliz Leonardo em
flagrante gozo de uma primícia amorosa, um abraço que
no quintal trocava ele com Vidinha.
(ALMEIDA, M. Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. São
Paulo: Editora FTD, 1996, p. 123.)