CIDADE DE MESENTÉRICOS [OLAVO BILAC, 1899]
Há casas vastas e belas que ficam longo tempo fechadas, num silêncio de morte, num sono de aniquilamento.
Conhecem os senhores cousa mais triste do que um
palácio desabitado? Enquanto os outros prédios, em torno,
abrem o seio, durante o dia, ao sol, e à noite, despejam
para fora, pelas janelas rasgadas, o pairar da alegria, da música e das conversas — a casa vazia fica fechada e triste
como um túmulo.
O Rio de Janeiro está, quase sempre, assim... Cidade
macambúzia, cidade de dispépticos e de mesentéricos,
Sebastianópolis parece estar sempre carregando o luto de
uma grande catástrofe. Já alguém notou que o carioca anda
sempre olhando para o chão, como quem procura o lugar
em que há de cavar a própria sepultura. E quem escreve
estas linhas já viu, uma noite, a polícia prender três rapazes
que, havendo ceado bem, se recolhiam à casa de amigos
cantando um coro de uma opereta qualquer. E prendê-los
por quê? Porque cantavam... Triste cidade!
Santo Deus! que sejam tristes, soturnas e embezerradas
as cidades do extremo Norte da Europa, que uma névoa
perpétua amortalha — cousa é que se compreende. A tristeza do céu entristece as almas... Mas que seja melancólica
uma cidade como esta, metida no eterno banho da luz do
sol — luz que se desfaz em beijos e sorrisos pelas copas das
árvores, pelas fachadas das casas, pelos buracos das ruas
—, isso é cousa que não se entende!
Felizmente, agora, o Rio de Janeiro parece sair do seu
letargo.
Voltemos à imagem da casa desabitada. Que alegria,
quando, depois de longo luto, abrem-se as janelas do
prédio à luz e ao ar, e espanam-se os móveis, e sacodem-se
as cortinas, e o piano acorda cantando uma valsa leve, e as
crianças se espalham pelos corredores, correndo e
chalrando!
Assim, o Rio de Janeiro, atualmente, nestes dias de festa. Antes da chegada do presidente Rocca,1
a chegada do
governador Viana...
Passeatas, banquetes, espetáculos de gala, corridas —
as costureiras trabalhando sem descanso, todo o
comércio rejubilando —, uma delícia para todo mundo!
Ah! quem dera que fosse sempre assim, Sebastianópolis!
E por que não és tu sempre assim, uma feira franca do
riso e do pagode? Talvez porque o nosso temperamento
seja realmente mais sujeito à melancolia do que à jovialidade? Não! há quem diga que a nossa tristeza depende
exclusivamente da nossa imundície.
Diz-se que, certa vez, um homem, pouco dado ao uso
do banho, sentiu-se atolar no pântano de uma melancolia
sem tréguas. Foi consultar um médico, que lhe aconselhou
o uso de banhos diários. E logo ao segundo banho o sujeito
ficou tão curado, que morreu... de um frouxo de riso.
O remédio é fácil de experimentar. Mal não fará, com
certeza: e é mais que provável que faça bem, e grande bem...
Ah! quem poderá viver bastante para te ver saneada, ó
cidade do Rio de Janeiro?
A gente, desde que se entende, ouve dizer que o Brasil
só não está hoje inteiramente povoado por causa do flagelo
periódico da febre amarela. Sabem isto os governos, sabe
isto o povo. Todos os médicos que há sessenta anos saem
das nossas faculdades, dizem e escrevem que a causa da
febre amarela é a falta de saneamento das cidades. Ninguém ignora que o vômito-negro, por anos e anos, devastou as populações de Galveston, de Filadélfia, de
Memphis, de New Orleans, e que dessas cidades
desapareceu para sempre — assim que, saneadas e
acostumadas à limpeza, elas deixaram de oferecer ao
desenvolvimento da epidemia um meio favorável. Torres
Homem, Ferreira de Abreu, todos os grandes clínicos do
Brasil se têm esbofado em pedir o saneamento —
declarando terminantemente que ele é o único meio de
combater e aniquilar a pirexia assassina.
Mas nada se tem feito. Os dias passam, e a gente continua a esperar que as redes aperfeiçoadas de esgotos, as
drenagens do solo e os abastecimentos d'água caiam do
céu por descuido — como se o céu tivesse algum
interesse nisso.
Agora, parece que o sr. prefeito municipal resolveu
meter uma lança em África, pedindo ao conselho que o
autorize a abrir largamente os cofres do município em
favor da ideia.
Claro está que isso só pode merecer aplauso. Mas... —
forte desgraça é esta! Sempre há de aparecer este mas
cruel, esta abominável adversativa que atrapalha tudo!
Mas... que ideia é esta de pedir a uma corporação médica
que estude mais uma vez o saneamento?
Ninguém se cansaria ainda em reeditar a bolorenta
série dos injustos epigramas com que tem sido crivada a
classe dos médicos — desde a prosa de Molière até as
desaforadas redondilhas de Bocage. Já se sabe que há no
Brasil médicos que são glórias legítimas e incontestáveis
desta terra. Mas sabe-se também que entre os médicos
brasileiros, e principalmente entre os médicos do Rio de
Janeiro, há uma rivalidade feroz, uma luta sem tréguas,
uma guerra de morte.
Passam-se meses sem que venham a público manifestações desse desacordo profundo: de repente, porém,
um alarido cresce nos ares, e, pelas colunas pagas ou não
pagas dos jornais, começa a ferver o escândalo, e
começam a chocar-se as injúrias, e é um nunca mais
acabar de acusações, de doestos, de denúncias, de
revelações escabrosas.
Agora mesmo estamos assistindo a uma dessas batalhas
edificantes. A galeria baba-se de gosto, e as empresas dos
jornais apanham o melhor do combate, que é o dinheiro
dos combatentes. Se à cabeceira de um doente, por
causa de uma talha malfeita, ou de um tifo mal
combatido, há tão ásperas lutas, que não haverá à
cabeceira da cidade, por causa do saneamento?
Enfim, o que devemos todos fazer é pedir a Deus que
ilumine o Concílio, mantendo sobre ele a sua infinita
Graça — e pedir aos médicos que economizem palavras,
porque não há de ser com elas que a municipalidade
saneará o Rio de Janeiro.
(Gazeta de Notícias, 30/7/1899)
O texto começa por uma comparação entre uma casa
aberta e uma casa fechada. NÃO pertence ao campo
semântico de casa fechada/cidade do Rio, segundo o texto: