O ambiente vai ficar pesado
Finalmente, o mundo ganhou consciência da necessidade
de agir rapidamente para evitar a degradação do ambiente e,
por isso, tomou a medida mais drástica que se pode tomar –
lançou, contra todos os que recusam reconhecer o problema
das alterações climáticas, a força mais exasperante e destruidora da natureza, uma adolescente.
Sou pai de duas adolescentes e sei que não pode haver
adversário político mais irritante, impertinente e respondão.
Tenho sofrido muito nas mãos destas políticas engenhosas e
implacáveis. Donald Trump não sabe onde se meteu.
A Greta não precisa convencê-lo de que o mundo caminha
para a extinção. Cinco minutos de conversa com ela e não só
ele passa a acreditar que o mundo vai mesmo acabar como
vai desejar que acabe o mais depressa possível. A única vantagem de Donald Trump é que pode usar a estratégia infantil
de tapar os ouvidos e gritar até a Greta ir embora. Mas é muito
improvável que ela se canse primeiro do que ele.
Trump há de querer ir brincar e a Greta não deixa. Nem
sequer o velho estratagema de a mandar para a escola para
descansar um pouco resulta, porque agora a adolescente
pode argumentar que gostaria muito de ir para a escola, mas
não pode porque o mundo precisa dela. É xeque-mate.
Talvez este modelo de ativismo extraordinariamente eficaz
possa ser usado para atacar todos os outros problemas do
mundo. Sempre que for preciso comparecer a mesas de negociação, os sindicatos enviam um adolescente para discutir
com o patronato. Os salários passam a se chamar mesada,
e ele consegue um aumento de 50% só para se calar e pôr a
música mais baixo.
Nas câmaras dos deputados, os líderes dos blocos parlamentares dos partidos da oposição passam a ser deputados
de 14 anos cheios de vigor, irreverência e acne.
Conseguem fazer passar vários projetos de lei importantes a troco da promessa de irem almoçar na casa dos avós no
domingo sem fazer cara feia e de limparem o quarto.
Creio que, completamente por acaso, talvez tenhamos
descoberto a maneira de tornar o mundo melhor.
(Ricardo Araújo Pereira, Folha de S.Paulo, 29.10.2019. Adaptado.)
A alternativa redigida segundo a norma-padrão de concordância e de emprego e colocação de pronomes é: