Leia o texto abaixo para responder à questão.
A VEZ DA PRETINHA
Uma passista contra o preconceito
LUIZA MIGUEZ
“Ladies and gentlemen, it’s time!”, anunciou o
mestre de cerimônias, num inglês tão fluente quanto
espirituoso. Era a deixa para que dezenas de mãos
ligassem as câmeras dos celulares e se erguessem na
plateia. Gingando com delicadeza, moças bonitas e
atléticas entraram em cena e, perfiladas, se deslocaram
vagarosamente até o centro do palco. Algumas vestiam
roupas curtas. Outras preferiam figurinos mais
comportados. Todas se equilibravam em cima de saltos
altíssimos.
Quando os percussionistas aceleraram o ritmo, as
jovens rebolaram freneticamente. Naquela madrugada de
domingo, cerca de 4 mil pessoas lotavam a quadra do
Salgueiro, na Zona Norte carioca. A tradicional escola de
samba ensaiava para o Carnaval de 2018. Às margens do
palco, entusiasmado com as passistas, um rapaz mostrou
os pelos do braço ao amigo do lado e disse: “Caraca!
Arrepiei!”
O mestre de cerimônias, igualmente empolgado,
disparou no microfone: “Que é isso, pretinha? Assim você
mata o papai!” Não se referia a nenhuma dançarina em
particular. Falava do grupo inteiro, como se admirasse
uma única mulher. “Rafaela!”, gritou outro rapaz na plateia,
enquanto apontava a câmera para a negra de 28 anos,
que trajava um macacão salpicado de purpurina e
ostentava longas tranças. Ela retribuiu o chamado com um
requebro sensual e um olhar debochado.
Nascida no bairro do Andaraí, também na Zona
Norte do Rio de Janeiro, Rafaela Dias é passista do
Salgueiro há mais de duas décadas e já escutou muita
gracinha dos espectadores masculinos. Aprendeu a
rechaçá-las com desenvoltura, mas nem por isso as
considera aceitáveis. Não bastasse, frequentemente
enfrenta situações racistas. Quando tinha 17 anos, por
exemplo, namorava um homem mais velho e branco.
Certa noite, assim que chegou a um salão de festas, o
casal ouviu alguém comentar: “Lá vai a mulata dar um
golpe no gringo.” Depois do episódio, sempre que
encontrava o namorado em lugares públicos, Dias evitava
usar salto alto ou maquiagem. Temia que a confundissem
com uma prostituta. Em outra ocasião, preparava-se para
conceder entrevista numa rádio, junto de várias colegas, a
maioria universitária. “Ué, passista agora estuda?”,
perguntou uma funcionária da emissora, sem o menor
constrangimento. De quebra, emendou: “E vocês são
todas escurinhas, né?”
Justamente com a intenção de debater o racismo
e o machismo é que Dias decidiu fundar o coletivo Samba
Pretinha. Mais três dançarinas do Salgueiro participaram
da iniciativa: a cientista social Sabrina Ginga, a estudante
de pedagogia Larissa Reis e a graduanda em medicina
Mirna Moreira. Desde 2016, as quatro organizam rodas de
discussão no próprio Salgueiro e em outras escolas do
Rio, como a Paraíso do Tuiuti. Falam principalmente para
as mulheres, embora não rejeitem a presença de homens.
A ideia é mostrar de que maneira os preconceitos de cor e gênero se manifestam no universo carnavalesco e quais
os caminhos para combatê-los, inclusive em termos legais.
Logo no primeiro debate, o Samba Pretinha se viu
diante de uma saia justa. Um dos dirigentes do Salgueiro
louvou o grupo e se declarou “branco de alma negra”.
Uma jovem que estava na roda de conversa protestou e
assinalou a incorreção política da frase. Nenhum branco,
afinal, pode saber o que um negro sente e vice-versa.
Irritado, o dirigente cogitou suspender o evento, mas
recuou.
Em parte por causa das questões levantadas pelo
coletivo, o enredo do Salgueiro para o Carnaval deste ano
– “Senhoras do ventre do mundo” – vai retratar as
matriarcas negras. Ou melhor: “As empreendedoras, as
líderes, as mães, as escritoras e todas as mulheres que
representam a força de uma raça”, nas palavras do
carnavalesco Alex de Souza. “Não deixa de ser uma
vitória nossa, né?”, ressaltou Dias uma semana após o
ensaio na quadra da escola.