Brasil repele cientistas que investigam novo tratamento
para glaucoma
Líder de investigação sobre causa de cegueira irreversível
lamenta fuga de estudantes talentosos
Marcelo Leite
O glaucoma, doença do nervo óptico que responde pela
maior parte dos casos de cegueira irreversível, avança no
país com o envelhecimento da população. Um grupo de
jovens pesquisadores do Rio de Janeiro procura uma via
revolucionária para tratar a enfermidade, mas está perto de
abandonar o Brasil.
O mais correto seria dizer que o Brasil os abandonou.
Ou ameaça fazê-lo, como se verá adiante. Antes, a boa
nova: sai nesta segunda-feira (12) na conceituada revista
Development artigo do time sobre a promissora via alternativa
de tratamento. A notícia é excelente não só para idosos brasileiros, uma vez que a OMS (Organização Mundial da Saúde)
estima que no ano que vem haverá 80 milhões de pessoas
com glaucoma no mundo. A equipe se formou liderada por
Mariana Souza da Silveira no laboratório de Rafael Linden no
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Também participou Rodrigo Martins, do Instituto de Ciências Biomédicas da mesma UFRJ.
Eles demonstraram que a ativação de um único gene
(Klf4) pode induzir a reconstituição de células ganglionares
da retina, cuja degeneração está na raiz do glaucoma.
O experimento empregou ratos, portanto não há garantia
plena de que ocorrerá o mesmo efeito de regeneração em
seres humanos. É o bastante, no entanto, para encorajar a
persistência nesse rumo, que um dia poderá render frutos.
“Acreditamos que há um longo caminho até uma terapia
de verdade, e muita coisa ainda por entender na biologia
subjacente”, afirmam Silveira e o principal autor do estudo,
Maurício Rocha-Martins, em entrevista à Development.
“Nossos dados indicam, contudo, que o programa para gerar
células ganglionares [no embrião] pode ser reativado, o que
abre novas direções para terapias regenerativas”.
Até então os tratamentos experimentais sob investigação
envolviam a proteção ou transplantes de células ganglionares cultivadas em laboratório (“in vitro”, dizem os biólogos),
que conseguem integrar-se na retina e lançar prolongamentos (axônios) até as áreas visuais do cérebro do roedor. O
procedimento, porém, tem baixa eficiência e risco de rejeição das células. Criar células ganglionares a partir de outras
presentes no próprio organismo (“in vivo”) é alternativa bem
mais atraente. Espera-se que o gene Klf4 possa provocar o
mesmo efeito em seres humanos.
É provável, entretanto, que aconteçam no exterior os novos passos do estudo de pesquisadores brasileiros reunidos
por Silveira (ainda que uma pequena parte tenha sido realizada na Alemanha). A equipe se dispersou. A própria líder
da pesquisa se encontra em Portugal. Passa por um período
sabático no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde
(i3S) da cidade do Porto, “como estratégia de sobrevivência”.
Silveira tenta consolidar colaborações fora do país e
diversificar linhas de pesquisa com o intuito de garantir a
manutenção do grupo de pesquisa no Brasil: “A ideia é buscar financiamentos internacionais”, explica, pois os recursos
de pesquisa no país estariam decididamente desaparecendo.
Dos seis estudantes coautores do artigo, só uma - a mais
jovem - continua no Brasil. O primeiro autor faz pós-doutorado na Alemanha, três outros estão cursando ou concluindo
doutorado na Alemanha e na França, e o quinto acaba de se
decidir por um doutorado no Canadá e está de partida. E há
pouco incentivo para retornarem.
“Estudantes talentosos estão desmotivados a ficar ou
voltar para o Brasil em função da redução drástica do número de bolsas, dos seus valores desatualizados e da falta de
financiamento. O fundamental é considerar o impacto que
isso possivelmente terá a médio e longo prazo. A fuga de
estudantes excelentes já é uma realidade”.
(Marcelo Leite, Brasil repele cientistas que investigam novo tratamento
para glaucoma. Folha de S.Paulo. 12.08.2019. Adaptado)
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